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22.11.13

o atordoamento da imagem




















___
*série de fotomontagens que fiz recentemente. puro exercício para o projeto o teatro da memória. nov, 2013.
brincadeiras narrativas - expansão do sentido - apagamento - desordem.


24.9.13

Paul Auster's case: a man in circles














    


 

__________
* Os desenhos foram inspirados em uma pequena história contada por 
Paul Auster no livro The Invention of Solitude, Penguin Books, 2007, págs. 83/84.


11.8.13

o encontro desaparecimento

[ou: por uma arqueologia interna submarina]




a arqueologia:
há pirâmides no deserto como no mar:
* Foram descobertas pirâmides de cristal no triângulo das bermudas. 
se o triângulo é potência, a pirâmide é catalisadora de energia. 
Se pode sincronizar o tempo dos relógios, poderia dessincronizar o mar?
seu vórtice é redemoinho, engole os navegantes da tensão superficial.
...



submergir para o encontro:

a pirâmide que tem a base na terra mais profunda, envolvida nesse ar turvo,

nesses mares de densidade inexplorada.

somente os peixes abissais e suas lanternas solitárias conseguem navegar.


os navegantes das superfícies são distraídos em alegria

na falta de profundidade que só a leveza mais ensolarada e inocente pode habitar.
navegantes que procuram o sol se esquecem de olhar para a densidade desconcertante desse mar.

cegos de sol, esquecem daqueles redemoinhos muito internos que nos sugam para dentro de si.

.....................................



a ponta da pirâmide é o princípio do redemoinho.
a espiral que turva os olhos cegos de sol,
esquecidos de olhar para a profundeza muito azul de melancolia e mar.

o mar.
aquele horizonte tão distante.
a luz contra o olho, flare de amor e ar.

...


se eu for abduzida para o meu íntimo,

como retornar?
[o fôlego tem a vida curta, o ar e a vida estão na superfície solar].

...


se há pirâmides no mar como no deserto,

há o oásis no mar?
[a cura do deserto é uma ilusão].

mas, antes de tudo, navegar.

a busca deve ser tão ensolarada quanto profunda.
não importa se caminho os desertos, não importa se navego a profundeza  inteira,
o encontro existe mesmo dentro do olho mais turvo.

[quero ser peixe abissal de olho de flare, 

o olho sempre no horizonte muito interno de sol e mar].

__________
*escrevo poéticas em troca de notícias, como esta aqui: 
**isto também poderia ser sobre: Cavity Structural Effect e Cristais Piezoelétricos

2.8.13

a viagem vertical é uma viagem de uma linha só.

uma linha, uma seta.
mover.

o encontro com o interior,
é o lugar só de um.

adentro.
dentro.
o.

...
quando se dirige a seta para dentro de si,
como seria possível viajar com o outro?

.
as setas paralelas não costumam se encontrar.

...
como seria possível o rumo das linhas paralelas, quando movidas para o seu interior?

esse lugar tão particular, 
abismo
peixes abissais
o mar
o olho turvo
o deserto
a areia
o horizonte
suor
dor
amor
o.

......................................

desejo viajar o mar
esse deserto turvo,
e renascer debaixo da areia.
e em linhas paralelas contemplar o horizonte interior de mar.


13.3.13

O nós das coisas II

Hoje,  por vias tortas* reencontrei o seguinte texto:

O nó das coisas


E fiquei pensando na maravilha inesperada que é ver um texto ainda fazer tanto sentido, tanto tempo depois.


Não é a mesma ocasião

Não é o mesmo acontecimento.
Não é a mesma pessoa que está vivendo, olhando, pensando.
Não é o mesmo sentimento.

é o mesmo sentido-sentimento, 

é ser.
ainda ser aquela pessoa.

é porque as angústias nunca se esvaem totalmente.

ou quando esvaem, um dia retornam,
[tudo gira, gira, afinal.
mudamos e ainda somos o mesmo.]

embaixo de outro rosto.

de outra sombra, de outros porquês.

e agora?

e se o texto me diz: dar um tempo.

...

dar um tempo pra entender.
pra viver, decidir, aceitar, transformar, mudar na mesma direção.

ou...


não. nem isto, nada disto.


A resposta que é a dúvida.


Uma vez me disseram: viva a dúvida.


...viver, perguntar dentro, observar, sentir.

Nem tanto entender, quanto: perceber.

...

Tem passos que são para trás.
Outros são parados, paralisados.
[o olho muito vivo de olhar fixamente na direção relaxada das coisas].

às vezes prefiro ser cega.

olhar com a nuca enquanto vou caminhando embora.
outras vezes,
enquanto não percebo vou caminhando na direção outra das coisas.

e eu às vezes não sei se caminho para me encontrar ou para me perder.


e tudo o que tenho são meus olhos muito vivos de procurar perceber,

apesar do coração em nuvens.

___
*por vias tortas: dizem assim: deus caminha certo mesmo que por vias tortas, ou, ele escreve certo por linhas tortas.
Em outras palavras, reecontrar um texto que tinha tanto a me dizer hoje foi providência divida, ou, uma coincidência algo assombrosa.


21.12.12

entreter o infinito*

... o tempo e a distância às vezes não significam nada.
outras vezes são tudo, porque transformam ou apagam as notícias, os  fatos, sentimentos... ou o que foi dito.

se o texto atravessa a distância da idade de uma estrela, então talvez ele seja imortal.


* Entreter o infinito é um trabalho de uma amiga artista (Mayana Redin) a quem admiro muito.
O trabalho pode ser observado na íntegra aqui: http://www.revistacarbono.com/artigos/01entreter-o-infinito/

6.11.12

as viagens verticais

As viagens transcorrem sempre por dentro da própria pessoa.

*Enrique Vila-Matas em Ar de Dylan, Cosac Naify, 2012.
** o título refere-se a outro livro de Vila-Matas: A Viagem Vertical, Cosac Naify, 2004.

3.9.12

os desejos atemporais

são como o mar revolto.

revoltos dentro de si, perdidos no vai-e-vem de ondas, de redemoinhos temporais.

alargam a vontade para além de seu tempo, de sua paz, de seus amores, das conveniências...

são teimosos, navegam contra a maré do tempo.

navegam contra a razão, contra a efemeridade de ser, contra as geografias...

se perdem em ondas sonoras, em ondas de saudade ecoada.


são tão leves que se confundem na areia.

são tão densos que se perdem no mar.

no mar de tudo que sou, no oceano do outro, no eterno mistério de desconhecer.


porque o desejo é querer navegar o desconhecido.

é ter olhos de estrela enquanto navego olhando para o céu.

o céu e o mar noturnos são um só.

são o horizonte perdido no tato de quem quer tocar.

...

os desejos atemporais são leves como a efemeridade,
e persistentes como quem caminha em linha equilibrista, atravessando os tempos sem se abater.

eles nunca perdem a força,

nunca ficam fracos de nostalgia,
[não possuem o vivido para viver]
apenas dormem, quando os deixamos cair no profundo mar.

e toda a vez que o mar se revolta eles batem nas rochas,

quebram em luz branca, jogados de volta para superfície.
[para a pele tão sensível de desejar]
tão luminosos, tão visíveis, e de geografia tão fugaz.


19.8.12

geografia temporal

o desencontro é muito mais do que uma questão de geografia.

é o cruzamento dos caminhantes em linhas de tempo distintas.


podemos viver sempre contornando.

as linhas das fronteiras, das arestas, das periferias...
os muros, os redemoinhos, as incertezas...

ou atravessar os desertos, saltar os abismos, equilibrar-se entre as a janelas.


no entanto, somos sempre um trajeto.

uma busca, um sentido de ser.

quantas linhas se cruzam na geografia do tempo?


quantas estradas posso percorrer no meu território de tempo?


tantas estradas sinuosas, tantas esquinas quebradas, desencontradas...


geografia efêmera de tempo.

deslocando todas as continuidades, todos os laços afetivos, todos os olhares.
todos os lugares e estados de ser.

tenho em mim tantas estradas quantos raios posso projetar.
brilhante estrada de fim de dia, de fim de luz, de fim de horizonte.
[mas a estrada renasce em dias e noites tanto quanto as estradas de ser são retas e sinuosas]

a minha viagem, é vertical*

a viagem de tempos e lugares num mesmo lugar.
a viagem de olhar silencioso, de poros que gritam.
a viagem de dançar dentro de casa, dentro de si.

a viagem é vertical porque atravessa o ar, os prédios, as pistas, a superfície, a pele, e cai dentro do mar.
dentro do profundo azul,
azul noite
noite escura dentro do mar.
iluminado pelo peixe abissal como as janelas distantes
[existe luz, mas tudo são silhuetas...]

mas há noites claras como o dia.
iluminando todos os cantos, o olhar veloz de quem percorre estradas.
revelando na passagem do eclipse o olhar de silhueta.
olho vivo, denso e atroz. 
todos os dias.
e nenhum deles.
exatamente como as distâncias.

a distância não é geografia, é um sentimento.

ou em outras palavras, um estado de estar.
não importa a linha geográfica, importa a linha temporal.

- as linhas podem cruzar sem nunca se encontrar.
[o encontro exige a pausa da passagem, a suspensão do movimento-tempo-sincronizado]

- ou podem se encontrar, mas não se enxergar.
[às vezes, as nebulosas não estão nas estrelas, estão nos olhos]

a geografia efêmera me permite encontrar alguém que não está lá.
[está em outro lugar, e quando estiver aqui, talvez eu já não esteja].
estamos no mesmo lugar, em tempos diferentes.

a tristeza das linhas paralelas é que elas sempre estão em sintonia, sem nunca se encontrar.

e existem as linhas desincronizadas, que se cruzam sem se encontrar.

...
em cada ponto da linha há um ponto para ser sincronizado.

em cada ponto existe um lugar, um olhar, uma experiência.
um ponto para a alegria, para o desejo.

meu corpo tem tantos pontos como contém esquinas.
e minhas curvas tão sinuosas contém toda a densidade do profundo silencioso do mar.

os amores são feitos de mesh points

quando deixamos de ser linha, somos uma trama.
somos uma paisagem enredada de viver.
todas as vezes que eu te encontrar, você vai pausar o seu ponto sobre o meu.
e vamos para outros lugares.
se encontrando, se confundindo, se encontrando.

quando eu já não souber mais onde estou e onde você está,
e nos encontrarmos em cada esquina,
a distância será sempre efêmera e o tempo sempre suspenso em pausa de encontro.
o lugar sempre o mesmo. 
o lugar de ser, o lugar de estar.
a sintonia que nunca acaba, mesmo distante.


* A Viagem Vertical é um livro de Enrique Vila-Matas. Cosac Naify, 2004.

2.8.12

nietzsche, o abismo, o vazio.

Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche*

................................................................


o abismo te olhando nada mais é que o teu desejo pelo abismo.

o abismo é as vezes como a medusa para quem não podemos olhar.
ou podemos olhar por apenas alguns segundos.

os segundos necessários para compreender.

o seu abismo particular.
que é o seu buraco, que é o seu vazio.

é no vazio interno que temos todas as dúvidas, todas as amarguras, todas as próprias incompreensões guardadas.


o abismo é a medusa que pode te petrificar.

mas é também o mar de sensibilidade, o nosso poço mais profundo, reservatório de quem somos.

se você olhar para o abismo e ele te olhar de volta,não tenha medo do mergulho profundo, da garganta de jibóia.


se a garganta do abismo te engolir, deixe-se digerir, vá nadando de encontro ao fundo do abismo.

porque até mesmo o redemoinho de espiral tem uma ponta, porque não tem abismo que não tenha forma de voltar.
[nem que eu escale as mais duras pedras, nem que eu nade ao infinito, 
nem que a garganta quebre os meus ossos até desaparecer e nascer outro]

nem que seja no salto ornamental inverso.

voltando para o precipício-mirador.

de onde miro o meu vazio tantas vezes quanto for necessário.

na busca do meu ser cheio de ar, de mar, amar, de buscar, de ser.


*desculpem, anotei isso faz tempo, sei lá de onde vem essa citação.

3.6.12

As cidades dentro das cidades e a cidade imaginada.

No redemoinho, a água tem camadas.

como as cidades, que se constroem sobre si mesmas, 
rapidamente, em círculos.

círculo: 
volta, retorno, fechamento, sem ponto de partida, sem ponto de chegada-fechada.
re-inícios, re-loopings, re-observações, re-distanciamentos.
Em curvas, em tonturas, indo para todo lugar, indo para lugar nenhum.

Não quero estar na curva, quero estar na linha.

Nas quadras, nos encontros, nas portas.
Nas passagens, nos corredores, nos cruzamentos.
Nas travessias, nos barcos, no mar.

...no mar de cidades, deve existir a cidade oásis.
[tão real porque tão longe do deserto].

Perdida entre pistas, entre cidades diversas.
às vezes escondida nas curvas, nas tangentes...
Nas esquinas as curvas dissolvem-se em linhas.
em encontros, em acostamentos.

A cidade oásis é cidade de sonho e de projeção.


é busca nas tangentes, busca nas retas.
é turva de quem busca sonhando, olhando para...
é busca de quem olha.

É projeção de construção.
Em cada linha, um risco.
um traço, uma soma, um encontro.

...
De esquina em esquina, como quem soma vértices,
Construo a minha casa, o meu cubo, a minha paisagem de mesh points.

Em cada ponto um encontro, em cada ponto uma trama.
Em cada trama o encontro de cidades e de tricô.
Costurando-tricotando-tramando uma paisagem de viver.

Uma paisagem-rede, a pescar a minha cidade oásis dentro do mar de cidades.


__________________________________________________________________
ilustração de Dan Mountford.









11.5.12

o limbo é eco

O limbo é deserto de eco.

O eco é o limbo de longas e curtas distâncias,
E caos organizado de som repetitivo.
É na repetição se perder e se encontrar.

Mas o eco é caminhante e quem caminha encontra o fim do deserto.

E eu só quero atravessar o deserto com White Denim.


________________
White Denim na música Light Light Light, no álbum Last Day of Summer.


29.2.12

Sobre o salto (spirit desire)

...

Spirit desire (face me)
Spirit desire (don't displace me)
Spirit desire
We will fall

Miss me
Don't dismiss me

Spirit desire

Spirit desire [x3]
We will fall
Spirit desire
We will fall
Spirit desire [x3]
We will fall
Spirit desire
We will fall

* trecho da música Teen Age Riot [Sonic Youth, álbum Daydream Nation]
escute, é lindo, eu garanto. [leonilson way of life] - (clique aqui)

... Everybody's talking 'bout the stormy weather...

14.2.12

o salto ornamental

...
...
...
Antes do salto, tem a rampa.

e tem os passos em direção à ponta da rampa,
e antes disso uma vida inteira.

a cada passo, uma ansiedade que nos forçamos a anestesiar,
como se os passos pudessem ficar cada vez mais leves, mais etéreos.

Na ponta da rampa a imobilidade.
O olho no fundo do mar, escondido embaixo da superfície calma da água.

Na ponta da rampa a ansiedade é diluída em respiros,
no olhar concentrado que esquece a altura, esquece o mundo à sua volta, esquece a vida inteira atrás da rampa.

no olhar que tenta esquecer a vertigem de viver.

A concentração é longa como os respiros, cada vez mais profundos, cada vez mais voltados para dentro de si.
Os respiros são suaves como os hibernantes.
Acumulando toda a energia durante o sono,
numa movimentação interna muito particular.
De instinto acordado mas de olhos fechados para o redor.

o redor da rampa e da vida atrás da rampa que irá abandonar.

o tempo vira vertigem.
poderia ficar semanas em cima da rampa, hibernando de olho sonhador dentro do mar.

e tão logo nos damos conta o sonho é o que sempre foi - a daydream living, e acordamos já na ponta dos pés, na ponta do salto que o corpo decidiu quando estava pronto, num instante sempre quase exato [e sempre incerto] à pausa do respiro.

hibernamos porque o salto é ornamental:
o salto calculado em cada movimento que no fim é sempre incerto, é sempre a busca de um ideal.
o ideal em direção ao mar revolto.
o mar embaixo d'agua é destino.

é onde a vertigem de viver toca em cada poro da pele.
onde estamos muito vivos, e acordados afinal.


encontrar o deserto.


* frame do filme Howl, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, 2010.

13.1.12