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4.1.14

to be wholehearted *

[ou: ela disse assim: 
abraçar as vulnerabilidades]


são tempos do vento.
e quando venta, as direções mudam.

às vezes parece mesmo que tudo ao redor venta.
o redemoinho bem em cima da cabeça.
o corpo inflado de nuvens densas.

imóvel.
o viajante cego de bússola desorientada
olhos e corpo na neblina.

caminha, mas a paisagem não muda.

[...]

[quando a espiral se encontra no coração]

é nevoeiro no deserto interior, 
cada passo é luta, cada passo é um projeto de insistência* desorientado.

a vulnerabilidade é o corpo que contém todos os passos desorientados.

[...]

amor.
desamor.
os pólos se invertem.
nevoeiro é tempestade.

...

e os raios todos apontam para o chão.
para a busca do eixo do meu redemoinho.
[que insiste nesse movimento espiralado - não vai a direção alguma].
um corpo que luta tanto dentro de si.

[...]

to be wholehearted:

ser o corpo vulnerável inteiro de suas múltiplas direções, equilibrado de todas as certezas e todas as dúvidas, todo o amor e angústia que couber na incerteza dessa vida caminhante, caminhar para lembrar que o passo é também efêmero, ele é o passo a frente de ontem e atrás do porvir.
o por vir que só vem depois dos dias, do calor-amor e das chuvas, as nuvens que se dissipam porque chega o dia em que a luz do dia sempre as atravessa, enchendo o olho de flare e de amor.

...

caminho o deserto [mesmo que em nevoeiro] sem medo.
o oásis é paisagem interior.


______________________

* Brené Brown em palestra no TEDx Houston [2010] fala sobre suas pesquisas sobre pessoas por ela intituladas wholehearted: de modo superficial, podemos dizer que são pessoas que não negam seus defeitos, suas inseguranças e incertezas. São pessoas que abraçam com coragem suas vulnerabilidades num mundo que é, afinal, incerto e vulnerável. "Who you are with your whole heart". É possibilidade que nos mantém sensíveis e reativos ao mundo, e também mais livres: livres dos apegos e das falsas seguranças. Imperfection. Não negar-se. Apenas viver.
A palestra se encontra neste link aqui.

Projeto de insistência é um termo que uso para designar a necessidade de manter-se em movimento e em direção ao foco, mesmo que este foco às vezes esteja nublado, ou simplesmente mude. Inclui questões como ilusão, projeção, vontade. Este assunto é recorrente neste blog tanto de modo mais direto quanto em várias subcamadas de entendimento.
Alguns exemplos diretos podem ser encontrados na tag vontades, neste blog.

23.10.13

meu abismo será um radar

[ou: Um desenhinho para Vila-Matas]



Ainda não li o novo livro* de Enrique Vila-Matas (ainda estou acabando outro, e são tantos livros pausados esperando...) no entanto, comprei este com urgência, pois sabia que o tema era por demais especial. Daniel Pelizzari confirma isto em trecho da apresentação do livro, onde nos diz:

"...Vila-Matas estende uma corda para equilibristas que não parecem tão interessados na travessia, mas sim em mergulhar em si mesmos, explorar o vazio, desaparecer no abismo que é a vida cotidiana."

____
*Exploradores do Abismo de Enrique Vila-Matas foi lançado pela editora Cosac Naify neste ano, 2013.

16.10.13

into the hole of space




En efecto, creo que fotografiamos no para recordar sino para olvidar. Si la memoria es como el firmamento, cada foto actúa como un agujero negro, absorbiendo y colapsando todos los recuerdos.
Joan Fontcuberta


_______
*Fotografia também de Joan Fontcuberta: Starfighter, 2001, da série Pin Zhuang.

24.9.13

Paul Auster's case: a man in circles














    


 

__________
* Os desenhos foram inspirados em uma pequena história contada por 
Paul Auster no livro The Invention of Solitude, Penguin Books, 2007, págs. 83/84.


11.8.13

o encontro desaparecimento

[ou: por uma arqueologia interna submarina]




a arqueologia:
há pirâmides no deserto como no mar:
* Foram descobertas pirâmides de cristal no triângulo das bermudas. 
se o triângulo é potência, a pirâmide é catalisadora de energia. 
Se pode sincronizar o tempo dos relógios, poderia dessincronizar o mar?
seu vórtice é redemoinho, engole os navegantes da tensão superficial.
...



submergir para o encontro:

a pirâmide que tem a base na terra mais profunda, envolvida nesse ar turvo,

nesses mares de densidade inexplorada.

somente os peixes abissais e suas lanternas solitárias conseguem navegar.


os navegantes das superfícies são distraídos em alegria

na falta de profundidade que só a leveza mais ensolarada e inocente pode habitar.
navegantes que procuram o sol se esquecem de olhar para a densidade desconcertante desse mar.

cegos de sol, esquecem daqueles redemoinhos muito internos que nos sugam para dentro de si.

.....................................



a ponta da pirâmide é o princípio do redemoinho.
a espiral que turva os olhos cegos de sol,
esquecidos de olhar para a profundeza muito azul de melancolia e mar.

o mar.
aquele horizonte tão distante.
a luz contra o olho, flare de amor e ar.

...


se eu for abduzida para o meu íntimo,

como retornar?
[o fôlego tem a vida curta, o ar e a vida estão na superfície solar].

...


se há pirâmides no mar como no deserto,

há o oásis no mar?
[a cura do deserto é uma ilusão].

mas, antes de tudo, navegar.

a busca deve ser tão ensolarada quanto profunda.
não importa se caminho os desertos, não importa se navego a profundeza  inteira,
o encontro existe mesmo dentro do olho mais turvo.

[quero ser peixe abissal de olho de flare, 

o olho sempre no horizonte muito interno de sol e mar].

__________
*escrevo poéticas em troca de notícias, como esta aqui: 
**isto também poderia ser sobre: Cavity Structural Effect e Cristais Piezoelétricos

2.8.13

a viagem vertical é uma viagem de uma linha só.

uma linha, uma seta.
mover.

o encontro com o interior,
é o lugar só de um.

adentro.
dentro.
o.

...
quando se dirige a seta para dentro de si,
como seria possível viajar com o outro?

.
as setas paralelas não costumam se encontrar.

...
como seria possível o rumo das linhas paralelas, quando movidas para o seu interior?

esse lugar tão particular, 
abismo
peixes abissais
o mar
o olho turvo
o deserto
a areia
o horizonte
suor
dor
amor
o.

......................................

desejo viajar o mar
esse deserto turvo,
e renascer debaixo da areia.
e em linhas paralelas contemplar o horizonte interior de mar.


20.6.13

amar é ato de um fôlego só.

amar também é um mergulho.

todos os mergulhos requerem amor,

e o desejo que é a vontade profunda.

...


é possível viver o amor sem o mergulho?


a menos que ele chegue devagarinho...

sem querer
sem perceber
sem esperar.

...

é melhor mergulhar enquanto estou vendada.
.

assim não respiro todas as inseguranças.

todos os bloqueios
todos os receios.

...

amar merece ser o mergulho de um fôlego só.
pra engolir o outro com toda intensidade.
virar casulo e voar.

porque se o amor não voa ele é frágil.

de tudo o que poderia ter sido e não foi.
de tudo o que tive medo de ser.

se os dois não souberem voar,
não saberão voar junto
e ficarão quietinhos vendo o outro desaparecer embaixo da terra.
desaparecer para ir a outro lugar.

...

minhas mãos são asas
que seguram e abraçam leve
o ar na ponta do pulso,
o impulso na ponta da abraço.
a vontade projetora propulsora.
leve de ar................................

o fôlego tem o tamanho da distância do mergulho.

depois dele vou me perder no outro
embaçar o olhar
que mira o horizonte tão distante das nossas linhas paralelas.


20.1.13

a poeira da dúvida nuvem

vivo a certeza como um mergulho ornamental para dentro do mar.
não importam os redemoinhos, as correntezas, o repuxo.
não importam as chuvas, as tempestades, as trovoadas em alto mar.

a certeza é um raio em direção a um objetivo
o desejo cego que quem não duvida encontrar.

e percorro o desejo com a força intensa de quem foge da areia-movediça.
a areia que engole os passos, a direção, a vontade, o desejo.

...
[descobri que posso ter certeza por muito tempo.
não duvidar mesmo quando duvido, mesmo quando a acidez do deserto ameaça me engolir.]

...
quando se tem certeza por tanto tempo, esquecemos onde foi parar a dúvida.

...
a dúvida pode viver em cada grão de areia que sopro para longe, dentro de casa.
[já não a vejo, não quer dizer que tenha ido embora].

escondo a poeira da dúvida em muitos lugares, e esqueço que muitas vezes a escondo dentro de mim.
[a bola de dúvidas crescendo dentro do peito pode um dia afogar].

.........
... como viver a dúvida?

.fantasma da imobilidade, nuvem pesada de não chover.

...
ter certeza da vontade é tão relativo quanto as nuvens de chuva passageira,
que passam sem dar certeza de suas intenções.

a dúvida é o pesadelo dos inebriados da vontade, alienados de que as dúvidas são nuvens.

...
a dúvida-nuvem vive todos os dias, dos ensolarados aos mais tristes.
podem estar distantes, intimidadas pela vontadade solar, pela alegria vontade projetada.
podem ser grandes, obscuras e pesadas; passageiras ou insistentes.

melhor deixar chover.

deixa chover o choro da dor sublimada, do corpo que se rasga de insistir e não percebe,
chover o choro do corpo cansado na travessia no deserto, 
chover a nuvem que embaça o olhar, que endurece o coração sincero da vontade.

...
que chovam todas as dúvidas dentro do peito, 
para as nuvens se dissiparem com alegria,
para o sol voltar a brilhar no olhar sem nuvens.

17.11.12

os errantes caminhantes não se importam com as certezas.

Orbitar.

Viver um mesmo trajeto, caminhar.

Todos os ciclos os mesmos, e tão diferentes.

[os planetas têm um jeito irônico de caminhar, de evoluir.

em loopings, revendo as estrelas, revendo tudo o que deixaram para trás].

...


E existem os planetas errantes.*


os planetas errantes são feitos de nuvens interestelares.

[nebulosa mente e estrelas].

não cercam as estrelas solares, não sabemos para onde estão indo.

parece que erram, porque abandonei meu ponto referencial.

...


viajar, vagar.

percorrer indistintas paisagens enquanto busco o meu horizonte-oásis.

...


quantos planetas existem na minha órbita?

quantos outros perseguem a minha mesma nebulosa constelação?

as estrelas, são pontos referenciais.


e se eu negar as estrelas, como enxegar o trajeto, como não me perder na poeira das galáxias,

na noite negra de infintos mistérios e silêncios....?

se não tenho iguais, estarei perdido?

caminho sozinho como o lobo solitário que devora todas as estrelas em seu caminho.

e minha órbita é tão imensa que ninguém é capaz de enxergá-la.


[quando ninguém entende o meu caminho, parece que fico a esmo].

ficamos a esmo quando duvidamos,
quando não enxergamos o redor,
quando tudo é névoa nos olhos e poeira no estômago.

...


mas não enxergar é a qualidade dos saltadores.


o saltador é aquele que fecha os olhos sem tremores.

[os temores existem, mas falam baixinho e esquecem de saltar junto].

é aquele que vive a vertigem de um trajeto não realizado.

a vertigem de um horizonte distante escondido embaixo do salto ornamental.

no mar de estrelas onde me perco.

na areia da terra que piso tão fina que me atravessa.

... 

não tenho órbita, sigo o desejo, viajo os desertos e as galáxias.


* tenho reparado um frequência fonte de inspiração em fenômenos naturais inesperados, inusitados. 
como o planeta CFBDSIR, aqui

29.10.12

o relógio é um ser sozinho

existem os relógios sincronizados e existem os relógios que não se comunicam.

ou você está, ou você não está.


não existe um quase, um meio, um talvez.


até parece que não existe o tempo da dúvida,

o tempo da falha.
o engano,
o olhar enevoado.

... às vezes, um dos relógios quebra.

seu funcionamento evade como névoa levada pelo vento,

o pó soprado em nossos olhos.

meu ponto referencial parou.

olhou para o outro lado,
não está.

não importa os porquês

não importam as baterias recarregadas,
já não caminham mais juntos.

existem tantos caminhos quanto existem relógios.


[mas não posso trocar o meu ponto referencial como quem troca a pilha]

a pilha é a ofensa a alma dos relógios.

...

qual a diferença dos relógios, se eles contam o mesmo tempo?


no mesmo passo,

a mesma busca.

importa a estrada.


o mesmo horizonte

o mesmo vento
os mesmos ruídos.
o mesmo cansaço
a mesma preguiça
a mesma raiva,
o mesmo ardor.
o mesmo calor
os mesmos olhos,
o mesmo tato.

a tatear a estrada invisível de tempo.


a tatear as distâncias e proximidades invisíveis de quem está lado a lado,

mirando o mesmo horizonte oásis.

14.10.12

o sono e a vigília

... as questões da diferença entre ficção/ciência, entre fantasia/verdade que são variantes do binômio sono/vigília... *

Fico pensando na invenção como algo próprio do sono/sonho.
e com isso...
o único modo de estar atento ao mundo, percebê-lo 
[observar-estar distanciado da invenção] 
é a vigília, o estado desperto.

o estado muito atento às emoções no universo externo particular.
[particular, mas no mundo].

se tenho sono, não observo.
vivo no deserto caminhante.
aquele que perde-se de todas as referências...
aquele que inventa, que cria,
mas que pode viver a delusion programed,
em loopings de viver, em redemoinhos de areia.

como inventar o despertador no deserto?
qual o som que toca para o vento cessar, e os olhos se abrirem de fim de nevoeiro?

nevoeiro dentro de si, mal enxerga o sol.
não enxerga os layers que atravessam as camadas de ser,
por entre as frestas,
do sono, do desejo, do conforto deep on the ground.

areia movediça.
mar repuxo-movediço.

os pés soterrados
os olhos fechados
a paisagem encerrada em névoa
o mundo inventado e real tão esmaecido

o despertador é o sol de fim do dia cinza,
aquele que chega rente aos olhos, invade as frestas
sedutor e incisivo.
mas um convite irregular.

regular deveria ser a vigília, que busca estar acordada com o dia,
e sempre esquece que existem as noites,
sempre adormece de repente,
e às vezes tem vontade de hibernar.

hibernar pesado como os ursos
ou as árvores seculares que caem quando as cortamos.

o peso da noite no olhar obscurece até a invenção,
o mundo que inventarmos-buscamos viver,
aquele cheio de alegrias, desperto como as articulações do relógio.
[a busca do ponteiro são as 12 horas].
e depois outro sol, outro trajeto, mudar como as dunas de areia.

aquele que abre os olhos não enxerga melhor.
[o seu horizonte de deserto nunca muda, ainda que caminhante]

aquele que abre os olhos enxerga onde está.
se eu não me mover, é o mundo que se move.
se eu me movo eu fixo o deserto como fixo o meu oásis.

o mar.

aquela eterna busca inventada, enquanto dormia, enquanto navega.


*texto de João A. Frayze-Pereira, em catálogo sobre obra de Grete Stern, IMS, 2009.

2.8.12

nietzsche, o abismo, o vazio.

Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche*

................................................................


o abismo te olhando nada mais é que o teu desejo pelo abismo.

o abismo é as vezes como a medusa para quem não podemos olhar.
ou podemos olhar por apenas alguns segundos.

os segundos necessários para compreender.

o seu abismo particular.
que é o seu buraco, que é o seu vazio.

é no vazio interno que temos todas as dúvidas, todas as amarguras, todas as próprias incompreensões guardadas.


o abismo é a medusa que pode te petrificar.

mas é também o mar de sensibilidade, o nosso poço mais profundo, reservatório de quem somos.

se você olhar para o abismo e ele te olhar de volta,não tenha medo do mergulho profundo, da garganta de jibóia.


se a garganta do abismo te engolir, deixe-se digerir, vá nadando de encontro ao fundo do abismo.

porque até mesmo o redemoinho de espiral tem uma ponta, porque não tem abismo que não tenha forma de voltar.
[nem que eu escale as mais duras pedras, nem que eu nade ao infinito, 
nem que a garganta quebre os meus ossos até desaparecer e nascer outro]

nem que seja no salto ornamental inverso.

voltando para o precipício-mirador.

de onde miro o meu vazio tantas vezes quanto for necessário.

na busca do meu ser cheio de ar, de mar, amar, de buscar, de ser.


*desculpem, anotei isso faz tempo, sei lá de onde vem essa citação.

3.6.12

As cidades dentro das cidades e a cidade imaginada.

No redemoinho, a água tem camadas.

como as cidades, que se constroem sobre si mesmas, 
rapidamente, em círculos.

círculo: 
volta, retorno, fechamento, sem ponto de partida, sem ponto de chegada-fechada.
re-inícios, re-loopings, re-observações, re-distanciamentos.
Em curvas, em tonturas, indo para todo lugar, indo para lugar nenhum.

Não quero estar na curva, quero estar na linha.

Nas quadras, nos encontros, nas portas.
Nas passagens, nos corredores, nos cruzamentos.
Nas travessias, nos barcos, no mar.

...no mar de cidades, deve existir a cidade oásis.
[tão real porque tão longe do deserto].

Perdida entre pistas, entre cidades diversas.
às vezes escondida nas curvas, nas tangentes...
Nas esquinas as curvas dissolvem-se em linhas.
em encontros, em acostamentos.

A cidade oásis é cidade de sonho e de projeção.


é busca nas tangentes, busca nas retas.
é turva de quem busca sonhando, olhando para...
é busca de quem olha.

É projeção de construção.
Em cada linha, um risco.
um traço, uma soma, um encontro.

...
De esquina em esquina, como quem soma vértices,
Construo a minha casa, o meu cubo, a minha paisagem de mesh points.

Em cada ponto um encontro, em cada ponto uma trama.
Em cada trama o encontro de cidades e de tricô.
Costurando-tricotando-tramando uma paisagem de viver.

Uma paisagem-rede, a pescar a minha cidade oásis dentro do mar de cidades.


__________________________________________________________________
ilustração de Dan Mountford.









11.5.12

o limbo é eco

O limbo é deserto de eco.

O eco é o limbo de longas e curtas distâncias,
E caos organizado de som repetitivo.
É na repetição se perder e se encontrar.

Mas o eco é caminhante e quem caminha encontra o fim do deserto.

E eu só quero atravessar o deserto com White Denim.


________________
White Denim na música Light Light Light, no álbum Last Day of Summer.


9.4.12

solidão em mares graves

achei este texto sem autoria específica* na internet:

If there ever was a member of the Lonely Hearts Club, this is it. This New York Times article from 2004 features the story of a lonely whale. Since 1992, this whale has been tracked by the NOAA using special Navy equipment used to monitor submarines. This particular whale always travels alone, without family, without a mate. Why? Because other whales cannot hear it. Or, they can, but the sound of its voice is not attractive for some reason. This whale sings at 52 Hertz (about the lowest note on a tuba), which is much higher than most whales, whose calls range from 15 to 25 Hertz. For this reason, he’s been nicknamed “the 52 Hertz whale.”

This whale also doesn’t follow normal whale migration routes, making it difficult to run into others on the freeway. So this whale just keeps swimming around the vast ocean, alone, with no one to talk to. He keeps sending out a call that no one is answering. It’s thought that this whale is possibly a hybrid between two different species, is deaf, or the last surviving member of an unknown species. It’s difficult to tell, because apparently no one has ever seen the whale. In the way that his fellow whales have never heard him, we apparently have never seen him.

outra versão:

Em 2004, o The New York Times escreveu um artigo sobre a baleia mais solitária do mundo. Os cientistas têm controle dela desde 1992 e descobriram o problema: ela não é como qualquer outra baleia. Ao contrário de todas as outras baleias, ela não tem amigos. Ela não tem uma família. Ela não pertence a qualquer tribo, pack ou gang. Ela não tem uma amante. Ela nunca teve um. Suas canções vêm em grupos de dois a seis chamadas, durando de cinco a seis segundos cada. Mas sua voz é diferente de qualquer outra baleia. É único — enquanto o resto de sua espécie se comunicar entre 12 e 25 hz, ela canta a 52 hz. Você vê, que é precisamente o problema. Não há outras baleias podem ouvi-la. Cada uma de suas chamadas desesperadas para comunicar permanece sem resposta. Cada grito ignorado. E, com cada canção solitária, ela se torna mais triste e mais frustrado, suas notas indo mais fundo em desespero como os anos passam.

Imaginem que mamífero maciço, flutuando sozinha e cantando — demasiado grande para se conectar com qualquer um dos seres pares, sentindo-se paradoxalmente pequeno em vastas extensões de oceano vazio, aberto.




Fico aqui pensando nas metáforas de superfície, primeiramente:

...às vezes parece mesmo que nem precisamos falar, como se soubéssemos desde já que temos uma voz distinta de todo o resto.

É que variamos os Hz.

O que nem sempre controlamos, é qual Hz queremos usar.

...às vezes me esforço no timbre errado, e assim ninguém irá me escutar mesmo.
ou uso a potência certa, mas no lugar errado. Não há ninguém que vá me ouvir aqui.

Então ficamos a vagar, esperando encontrar algo que já se foi para outro lugar.

...

A 52Hz whale é um momento, um lapso espaço-temporal.
É estar no mar profundo com voz de tuba,
é ter vontade de navegar sozinha.
[minha correnteza é distinta, mesmo murmurando e chamando os outros baixinho].

é lapso porque em qualquer outro momento sou ouvida.
mesmo que não queria,
mesmo que esteja navegando em outra corrente.
[não existem ilhas de água dentro do mar].


_____
* A versão em inglês, foi encontrada aqui. Já a versão em português foi achada no facebook, em locais diversos. - A imagem acompanha o primeiro site, mas assim como outras imagens encontradas, difícil precisar a legitimidade. - Fica a ilustração pela "vazia" intenção de ilustrar, de fazer este meu caderno de notas algo "caderno botânico".

** Mas, o citado artigo do New York Times está aqui.

*** E o som dela, sua com sua profundidade triste de tuba, aqui.