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16.2.11

o sentido dos frames

ou: o colecionador.

Há algum tempo (hoje parece um tempo consideravelmente distante), tinha o hábito de capturar frames de filmes que gostava. Foi mais ou menos na época em que eu estudava fotografia, e estava um pouco em "crise", num hiato criativo.
...

Como estava enfadada com o meu olhar, acabei resolvendo deixar a fotografia de lado por um tempo, e distrai o meu olhar com o cinema.
O hábito de colecionar frames chegou quase sem aviso, como um passatempo, mas adquiriu regularidade em ocasionais impulsos que eu não conseguia conter. Foi só depois de algum tempo que percebi, para além das noções estéticas, que existia algum elo sutil entre as imagens que capturava, e que isto revelava uma profunda relação com a fotografia (em termos de gostos pessoais) e, por consequencia, com a fotógrafa e artista que eu era em essência.

Percebi que não só o mise-en-scene me encantava pelas possibilidades narrativas, como também uma ideia de sequestro da imagem, como uma noção de que a imagem nunca está completa, pois pertence a um momento não inteiramente conhecido.
Em outras palavras: me fascina até hoje em em diferentes ocasiões a ideia de non-sense e, neste caso, se aplica a uma imagem que possui uma história, supostamente. A imagem não é plausível por si só, e me agrada a presença da frustração que ocorre por não conseguirmos desvendá-la.

...

Hoje vi o filme The Good Heart, que recomendo muito.
Não bastassem as atuações e a fotografia fantástica, o roteiro é um deleite, e o diretor revela um talento fascinante em algumas "tiradas" verdadeiramente surreais, em diversos níveis.
Então, como uma homenagem a este filme lindo e minha saudade de fotografar (vivo em outro hiato neste momento) recolhi alguns frames, que eu compartilho aqui:





obs: devo observar que a minha rápida pesquisa só permitiu recolher frames da web e de trailers, mas o filme apresenta outros momentos especiais para coleção.
obs2: é estarrecedor perceber como os personagens se encaixam algumas situações simbolicamente reveladoras. Há vários subtextos especiais, que complementam ou dissolvem as imagens... mas a crítica fica pra outra hora =)

* O Bom Coração (The Good Heart), de Dagur Kári:
http://www.imdb.com/title/tt0808285/


8.12.10

Crisis Blues 2


Se saio na rua, não vejo ninguém.
Se fico em casa, vejo outros tantos, me perco neles.

...

Música é delírio.
Escrever é correr pelas estradas.


12.11.10

o observador




Recentemente participei de um projeto com uma fotografia.
Produzi algumas, e no fim fiquei bastante indecisa entre duas delas.
[parecidas, diferem entre si apenas pelo grau de exposição].

Continuo indecisa.
Então, como um gesto de reparação, publico a foto anteriormente ignorada.
...

Acho-a mais silenciosa.
Como se um véu escondesse toda sua intenção.

6.6.10

sobre a escultura do pensamento


"ESCULTURA SOCIAL

Meus objetos são para serem vistos como estimulantes para a transformação da ideia de escultura... ou da arte em geral. Eles devem provocar pensamentos sobre o que a escultura pode ser e como o conceito de esculpir pode ser estendido para materiais invisíveis usados por todos
- PENSANDO FORMAS - como nós moldamos os nossos pensamentos ou
- FORMAS FALADAS - como damos forma a nossos pensamentos e palavras ou
- ESCULTURA SOCIAL - como nós moldamos e damos forma ao mundo em que vivemos:
ESCULTURA COMO TODO UM PROCESSO EVOLUCIONARIO; TODO HOMEM E UM ARTISTA."

Joseph Beuys*

* bem, certamente isto deve ter sido foi tirtado de algum livro, mas..
a referência que posso oferecer é a exposição:
Horizonte Expandido, em cartaz no Santander Cultural, Porto Alegre/RS
na presente data.

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não que eu concorde tanto assim com esta visão de arte,
mas o pensamento de Beuys me encanta.
...

pensar que posso transformar as palavras no meu pensamento em outras palavras
nas mesmas ideias,
e em outras,
e assim transformar os pensamentos em outros
e as ideias em outras.

é por pensar que faço arte ao escrever
e que posso ser artista até no pensamento,
que continuo a escrever.


31.5.10

o mundo dessincronizado e o engodo.


Se quiser um dia calar uma realidade,
é só pensar em outra que soe mais alto.

(já pensava o sr. Juarroz, quando decidiu calar a torneira, pensando em Mozart num volume muito mais alto).

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A partir do mini-conto: Resolução de problemas práticos
Gonçalo M. Tavares
O Sr. Juarroz, ed. Casa da Palavra, 2007


30.5.10

uma citação:


"E estar mais longe é uma outra forma de nos escondermos."

do mini-conto: Sombras e Esconderijos
Gonçalo M. Tavares.
O Sr. Juarroz, ed. Casa da Palavra, 2007.


6.3.10

no name

nobody can call me by my name é o nome de uma obra que eu vi na primeira bienal do mercosul a qual fui. devia ser a segunda, creio que eu tinha uns 16.

visualmente, a obra tinha algo de tosco e displicente.
no entanto, o nome me atingiu como um raio: certeiro e profundo.
e até hoje não sei explicar o porquê.

talvez o fato de lidar com algo inominável, pelo sentido e no contexto em que me atingiu; ou pela força da imposição: ninguém pode me chamar pelo meu nome, me deixasse num misto de paralisia e fascinação.
um nome destes, ironicamente, me parecia ter um tom muito pessoal, apesar da obra se constituir de algumas esculturas repetidas, sem forma definida.
o título, soava como uma voz vinda por trás dos meus ouvidos: você não pode me chamar. sou um raio distante, indescrítível, intangível. cegante.

curiosamente, nunca tive uma necessidade de me entender com isto. como se a força desta obra residisse no fato de não compreendê-la por completo.
é pela força desta onda que eu ainda lembro, a incompreensão que ainda repercute em mim.

...

existem alguns fatos e pessoas que passam pela nossa vida com esta mesma força: paralisia, fascinação e incompreensão.
a tentativa de elucidá-los os torna mais fortes.
a capacidade de estar em paz com eles me provoca um sorriso no fundo dos olhos.


no fundo, eles não podem me chamar pelo meu nome.
não me conhecem.
e curiosamente, é pela incompreensão que os conheço tão bem.



nobody can call me by my name




22.2.10

na mudança de vontades, me deparo com o desconhecido


Algumas ironias mostram o óbvio do mundo.
Estes dias me pediram pra fazer um desenho, e vejam no que deu:
[a saber: o desenho foi um retorno infeliz.]

Há algum tempo não tenho tido uma vontade sincera de produzir imagens.
Ao menos escrevo, e vamos ver o que acontecerá a partir daí.


22.9.09

imagem-nada







........................................

Tudo depende do contexto.


a imagem fora de contexto,
outro contexto, outra dinâmica.
estaria a funcionar de outra forma?

como se dá a ver a imagem-nada descontextualizada?



ser nada no contexto original,
vira potência para todos os outros.

7.9.09

afogar - afundar


O afogamento como estratégia de sublimação.


porque não enterrar?
não sujarei os dedos, não cavarei nem um centímetro.

amarrarei pequenas pedras nos desejos frustrados.
nos insucessos.

um dia, quem sabe,
venham a se desamarrar sozinhos
para emergir no lago que já foi há muito abandonado.

a estratégia tem a seguinte metodologia:
Pequenas ações delicadas para a indiferença.

a indiferença, como toda boa não-ação
guarda crueldade desde a raiz.

25.7.09

deslocamento:


pensando no dia 28, dou um pulo por dia.




...gosto de pensar nos novos sentidos,
que só surgem no movimento.


quase sem contrução. ou,
uma vaga construção, permitida apenas por se enguer em algo desmanchado.

algo ruínas.

28.6.09

tempos longos.


-- o sentimental transforma um dia em meses.


dia vertiginoso.
intenso e concentrado como o furacão que gira no mesmo lugar.
concentrado no ponto.

em transe.


meu coração como uma flecha.

meu furacão não leva nada. deixa os papéis espalhados pela mobília.
todas as mobílias do meu universo possuem papéis espalhados.
pequenos pedaços de papel que eu junto gentilmente, pouco a pouco.
na expectativa que o tempo diluído me traga tudo de volta.
mas não pelo coração.

pelo olhar.
pelo tato.
meus dedos absorvem gentilmente, guiados pelo olhar.

os olhos muito vivos. extasiados.