[ou: Um desenhinho para Vila-Matas]
Ainda não li o novo livro* de Enrique Vila-Matas (ainda estou acabando outro, e são tantos livros pausados esperando...) no entanto, comprei este com urgência, pois sabia que o tema era por demais especial. Daniel Pelizzari confirma isto em trecho da apresentação do livro, onde nos diz:
"...Vila-Matas estende uma corda para equilibristas que não parecem tão interessados na travessia, mas sim em mergulhar em si mesmos, explorar o vazio, desaparecer no abismo que é a vida cotidiana."
____
*Exploradores do Abismo de Enrique Vila-Matas foi lançado pela editora Cosac Naify neste ano, 2013.
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23.10.13
16.10.13
into the hole of space
En efecto, creo que fotografiamos no para recordar sino para olvidar. Si la memoria es como el firmamento, cada foto actúa como un agujero negro, absorbiendo y colapsando todos los recuerdos.
Joan Fontcuberta
_______
*Fotografia também de Joan Fontcuberta: Starfighter, 2001, da série Pin Zhuang.
24.9.13
Paul Auster's case: a man in circles
5.2.13
deixar chover Manoel de Barros
... E aquele
Que nunca morou em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
___
*trecho do poema ZONA HERMÉTICA, de Manoel de Barros, em Poesias [1947].
(no livro Manoel de Barros poesia completa, ed. Leya, São Paulo, 2012, p.82)
Que nunca morou em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
___
*trecho do poema ZONA HERMÉTICA, de Manoel de Barros, em Poesias [1947].
(no livro Manoel de Barros poesia completa, ed. Leya, São Paulo, 2012, p.82)
21.12.12
entreter o infinito*
... o tempo e a distância às vezes não significam nada.
* Entreter o infinito é um trabalho de uma amiga artista (Mayana Redin) a quem admiro muito.
O trabalho pode ser observado na íntegra aqui: http://www.revistacarbono.com/artigos/01entreter-o-infinito/
outras vezes são tudo, porque transformam ou apagam as notícias, os fatos, sentimentos... ou o que foi dito.
se o texto atravessa a distância da idade de uma estrela, então talvez ele seja imortal.
O trabalho pode ser observado na íntegra aqui: http://www.revistacarbono.com/artigos/01entreter-o-infinito/
10.12.12
me interessam os desertos interestelares...
* parte de obra de Diego Maquieira, exposta da 30º Bienal de São Paulo.
** e vale muito ver o vídeo deste link aqui. [a ficção sabe mais que a realidade]
*** ele ainda diz [aqui]:
Quiero ser poeta de la Nasa, que es donde se está haciendo lo que deberían hacer los poetas, fotografiar lo desconocido...
um deserto [de Manoel de Barros]
Uma espécie de gosto por tais miudezas me paralisa.
Caminho todas as tardes por este quarteirões
desertos, é certo.
Mas nunca tenho certeza
Se estou percorrendo o quarteirão deserto
Ou algum deserto em mim.
* não tenho a menor ideia de qual livro o texto se encontra.
Mas existe a suspeita de que seja do “Tratado geral das grandezas do íntimo”
Caminho todas as tardes por este quarteirões
desertos, é certo.
Mas nunca tenho certeza
Se estou percorrendo o quarteirão deserto
Ou algum deserto em mim.
* não tenho a menor ideia de qual livro o texto se encontra.
Mas existe a suspeita de que seja do “Tratado geral das grandezas do íntimo”
6.11.12
as viagens verticais
As viagens transcorrem
sempre por dentro da própria pessoa.
*Enrique Vila-Matas em Ar de Dylan, Cosac Naify, 2012.
** o título refere-se a outro livro de Vila-Matas: A Viagem Vertical, Cosac Naify, 2004.
*Enrique Vila-Matas em Ar de Dylan, Cosac Naify, 2012.
** o título refere-se a outro livro de Vila-Matas: A Viagem Vertical, Cosac Naify, 2004.
o deserto esconde e releva, como a memória
Não sei
quantas voltas ao mundo possa ter dado nessas semanas sem horas, náufrago de um
horário desnorteado que me lembra quando adoecia na infância e o ar era imortal
então, aqueles dias que logo voltaram para mim porque talvez nunca tenham ido
completamente, estiveram sempre aqui, como um valioso tesouro enterrado no mais
fundo da última gruta do deserto.
*Enrique Vila-Matas em Ar de Dylan, Cosac Naify, 2012.
3.11.12
escrever, desaguar.
....e, no
entanto, poucas coisas parecem tão intimamente ligadas como o fracasso e a
literatura.
*Enrique Vila-Matas em Ar de Dylan, Cosac Naify, 2012.
13.8.12
Babylon Soul - uma crítica, one inspire*
Um amigo cuja aptidão musical aprecio e admiro (não importa a ordem, importa o que se cria), criou:
Rebonjour - Babylon Soul
...
Há muito tempo tenho vontade de escrever criativamente-criticamente-poeticamente sobre o que gosto e me afeta musicalmente (e em outros gêneros que agora não importam, um dia chegaremos lá).
Esse texto é feito de faixas musicais e densidade nos ouvidos. enfim, Escute-leia-sinta:
Rebonjour - Babylon Soul
...
Há muito tempo tenho vontade de escrever criativamente-criticamente-poeticamente sobre o que gosto e me afeta musicalmente (e em outros gêneros que agora não importam, um dia chegaremos lá).
Esse texto é feito de faixas musicais e densidade nos ouvidos. enfim, Escute-leia-sinta:
Atividade, impacto. ciclos. é hora de chegar.
Heart full of life, open heart.
Menahan Street Band é a band das calçadas, das caminhadas cinzas e ensolardas, do olhar nebuloso de oásis.
The wave goodbye é densidade gritando nos poros, é a noite, as nebulosas estelares, tudo o que é brilhante e se estilhaça no ar como fogos de artifício.
A aspereza de uma canção profunda e disfarçadamente melancólica.
The celebration é o passo apressado dos metrôs, da vida que corre sem a gente perceber.
há quanto tempo estamos aqui?
há quanto tempo estamos aqui?
o que viemos fazer aqui afinal?
quando você vai olhar para o seu buraco antes que o buraco da cidade te engula, afinal?
sim, essa canção corta para a melancolia como quem lembra que a alegria é um sentimento efêmero, que dura pelo esforço de cativar.
o olhar fica nebuloso na poeira dos dias e não importa, caminhamos assim mesmo.
Forever Dolphin Love me comove no formato deep inside.
mas em deep inside vive a vontade de dançar,
de rir e de chorar, de olhar no vazio [e tão cheio] profundo da noite.
Cinematic enquanto passagem cinética, e previsível dos dias. A profusão da minha faixa preferida [of cinematic] me imobiliza, obriga a contemplação de uma sp estranha e tão comum a mim. a todos nós anônimos e estranhos pela distância de desconhecer e reconhecermos a nós mesmos, outra e outra vez.
Com Roling Stones vejo a passagem do tempo, o sol, a chuva e a alegria dos dias chegando…
caminhamos, enfim.
caminhamos, enfim.
Balek: zapping em anéis de saturno. a caminhada em desertos sonoros.
E claro, o jazz chega manso como aquele convidado que já estamos esperando…
Little Boxes me lembra Baby Jane, toda a vez. não há como escapar.
A insanidade cute se apresenta.
Ela prepara para a densidade dos acordes seguintes,
o ar enevoando, o ar do deserto.
o ar enevoado tão claro quanto a luz que o atravessa, iluminando e turvando os olhos.
E depois a caminhada Magik Marker.
A caminhada rumo ao redemoinho veloz de ideias em direção ao buraco de si.
E então a calmaria de quem sente o sol do deserto em todos os poros. [over the ocean]
Morphine anuncia o final chegando.
Calmo, leve como quem sempre pode voltar.
Gordon Jenkins me confirma que o final é uma piada. A eterna comédia de viver.
Lembra que sp exige bom humor. Leveza e alegria mesmo nas pauladas no final.
Je te laisserai des mots é a melancolia que sempre chega.
É sabedoria deixá-la repousar sobre nós.
Vivê-la e deixá-la ir….
Free. Free melancholia serena. saber que tudo é um ciclo, tantas voltas, tantas vidas.
E o tango feroz, confirma enfim: sejamos bem humorados, como forma de olhar para o buraco e o vazio que nunca nos abandona.
Só o peso do tango tangencia a vida de modo mordaz, e tão real.
*spirit desire, spire desire, spirit desire... we will fall...
5.8.12
sobre o escrever [como modo de ser]
Ensaio é imaginação. Se existe alguma forma de informação num ensaio, é sempre algo corriqueiro, e, se contém opiniões, não serão necessariamente confiáveis a longo prazo.
Um verdadeiro ensaio não serve a propósitos educativos, polêmicos ou sociopolíticos: é o movimento de uma mente livre enquanto brinca.
Embora escrito em prosa, está mais próximo da poesia do que de qualquer outro gênero.
Como um poema, um verdadeiro ensaio se faz com linguagem, personagem, atmosfera, temperamento, garra e acasos.
Cynthia Ozick
Retrato do ensaio como corpo de mulher
revista Serrote nº9
Um verdadeiro ensaio não serve a propósitos educativos, polêmicos ou sociopolíticos: é o movimento de uma mente livre enquanto brinca.
Embora escrito em prosa, está mais próximo da poesia do que de qualquer outro gênero.
Como um poema, um verdadeiro ensaio se faz com linguagem, personagem, atmosfera, temperamento, garra e acasos.
Cynthia Ozick
Retrato do ensaio como corpo de mulher
revista Serrote nº9
2.8.12
nietzsche, o abismo, o vazio.
Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche*
................................................................
o abismo te olhando nada mais é que o teu desejo pelo abismo.
o abismo é as vezes como a medusa para quem não podemos olhar.
ou podemos olhar por apenas alguns segundos.
os segundos necessários para compreender.
o seu abismo particular.
que é o seu buraco, que é o seu vazio.
é no vazio interno que temos todas as dúvidas, todas as amarguras, todas as próprias incompreensões guardadas.
o abismo é a medusa que pode te petrificar.
mas é também o mar de sensibilidade, o nosso poço mais profundo, reservatório de quem somos.
se você olhar para o abismo e ele te olhar de volta,não tenha medo do mergulho profundo, da garganta de jibóia.
se a garganta do abismo te engolir, deixe-se digerir, vá nadando de encontro ao fundo do abismo.
porque até mesmo o redemoinho de espiral tem uma ponta, porque não tem abismo que não tenha forma de voltar.
[nem que eu escale as mais duras pedras, nem que eu nade ao infinito,
nem que a garganta quebre os meus ossos até desaparecer e nascer outro]
nem que seja no salto ornamental inverso.
voltando para o precipício-mirador.
de onde miro o meu vazio tantas vezes quanto for necessário.
na busca do meu ser cheio de ar, de mar, amar, de buscar, de ser.
*desculpem, anotei isso faz tempo, sei lá de onde vem essa citação.
Friedrich Nietzsche*
................................................................
o abismo te olhando nada mais é que o teu desejo pelo abismo.
o abismo é as vezes como a medusa para quem não podemos olhar.
ou podemos olhar por apenas alguns segundos.
os segundos necessários para compreender.
o seu abismo particular.
que é o seu buraco, que é o seu vazio.
é no vazio interno que temos todas as dúvidas, todas as amarguras, todas as próprias incompreensões guardadas.
o abismo é a medusa que pode te petrificar.
mas é também o mar de sensibilidade, o nosso poço mais profundo, reservatório de quem somos.
se você olhar para o abismo e ele te olhar de volta,não tenha medo do mergulho profundo, da garganta de jibóia.
se a garganta do abismo te engolir, deixe-se digerir, vá nadando de encontro ao fundo do abismo.
porque até mesmo o redemoinho de espiral tem uma ponta, porque não tem abismo que não tenha forma de voltar.
[nem que eu escale as mais duras pedras, nem que eu nade ao infinito,
nem que a garganta quebre os meus ossos até desaparecer e nascer outro]
nem que seja no salto ornamental inverso.
voltando para o precipício-mirador.
de onde miro o meu vazio tantas vezes quanto for necessário.
na busca do meu ser cheio de ar, de mar, amar, de buscar, de ser.
*desculpem, anotei isso faz tempo, sei lá de onde vem essa citação.
11.2.12
a doença como embrião hibernante.
A Doença*
Não se trata nem de aniquilar nem de domesticar; a doença veio e tu, como bom hospitaleiro, deixaste-a entrar, e condeste-lhe até a melhor das tuas cadeiras. Mas eis que a hóspede parece não querer levantar-se, nenhum indício revelou até agora (e quantos dias passaram?, semanas? meses?) de algo que se assemelhe ao início de uma cordial e bem-educada despedida. Olhas bem para ela, finalmente, da tua cadeira cada vez mais desconfortável, e como que medes, com os olhos, a sua força e eventualmente os seus amigos - hesitando assim entre ser rude, expulsando-a à força, e aceitar as circunstâncias com um certo desportivismo.
E dada a tua gentileza invulgar, que desde a infância te elogiam, inclinas-te por fim para a segunda solução: és tu, pois, que te levanta para sair, incitando-a a não deixar de comer da cozinha os teus últimos alimentos, e deixando-lhe então, por completo, e com último olhar de entendimento, toda a casa por sua conta.
*Gonçalo M. Tavares. Breves notas sobre o medo. Relógio D'Agua, 2007.
...................
a doença é o embrião hibernante.
embrião de metamorfose-metástase,
espelho e reflexo involuntário.
...acumulando energia para o abandono, como um animal que engole sem pensar.
devora toda a vida, e vai-se embora para outros lugares.
...até chegar lá já digeriu toda a vida,
buscando tudo o que é externo,
e tão interior.
2.2.12
homens-máquina, insones hibernantes
Serge Daney comenta sobre alguns grandes cineastas franceses*, nos anos 70 (segundo ele, um período-deserto):
...eles jamais pararam de filmar. Melhor: jamais pararam de experimentar.
[...]
tais autores souberam cosnstituir sua própria máquina de produção, ou, como diz Rivette, seu "microssistema". Uma máquina de produzir um filme, mas sobretudo de produzir a posssibilidade de outro filme, em seguida.
[...] 2x
eles pensaram "small is beautiful";
eles estiveram, para retomar a bela expressão de Deleuze, "muito povoados do interior de si mesmos".
e ainda:
O que caracteriza essas máquinas tão diferentes umas das outras não é seu tamanho (em geral, elas são pequenas), é que são máquinas que permitem desvios.
Quero tornar-me homem-máquina,
meu interior é o deserto onde hiberno.
No interior do deserto as dunas são desvios,
como linhas originais
que extrapolam o corpo-máquina, para o horizonte.
Serei a minimajor do sonho,
construirei os passos para o exterior,
onde a paisagem é orgânica e feroz
feroz como a fome criativa
a faísca que produz os desvios que me levam naquela direção tão turva, e tão clara.
A paisagem é sonora e color.
e o mergulho desviante é linha de percurso.
...
o que ele quer dizer, também, é que:
Porque a verdadeira riqueza é o tempo, o tempo que um artista precisa para trabalhar um material, para acumular experiência.
* Godard, Vecchiali e Rohmer, mais especificamente.
** Fonte: Serge Daney. A Rampa: Cahiers du Cinéma, 1970-1982. Cosac Naify, 2007.
4.1.12
3.1.12
oh Beckett, sempre Beckett...
Nunca ter tentado. Nunca ter falhado.
Não importa. Tentar outra vez. Falhar
outra vez. Falhar melhor.
Samuel Beckett, Worstward Ho, 1983*
*No livro: In a given situaticion, Francys Alÿs, Cosac Naify, 2010.
29.6.11
Instant Karma
Para purificar-se num instante:
Well we all shine on!!!
Like the moon, and the stars, and the sun...
A coisa mais bonita desta música é que John Lennon a canta com tanta força, como se ela fosse proporcional à possibilidade do desejo realizado.
13.3.11
a vontade e o olhar.
Mal vale a pena ver, sem querer ouvir-perceber.
Breton bem sabia do acaso: jogar-se é como ter os olhos muito abertos.
Mas nem desejo ver tanto,
apenas vontade de ser alguém sem guarda-chuva.**
*André Breton, Nadja, ed. cosac naify, 2007
**Enrique Vila-Matas, A Viagem Vertical, ed. cosac naify, 2004
10.3.11
descompostura.
disse a ele: [...] e que o caminho da arte era o da impostura , que a única fonte do belo era a ação, e que a arte na verdade era somente uma maneira de fazer, e não uma forma de pensar. O importante era a ação. Todo o resto tinha algo de doentio.*
[...]
Estranhamente, sou uma artista quando tudo começa na "forma de pensar".
sou artista desde a origem do pensamento.
Por outro lado, pensar é como vivenciar sozinho e não falar:
O ato de expressar verbalmente [e em outros lugares] dá vida ao pensamento e a certos acontecimentos.
Não falar é como se nada tivesse acontecido.
Se eu levar o meu pensamento para tudo o que fizer, ele estará impresso inclusive nas formas.
Isto é tudo o que importa, como uma alavanca de ação.
*Enrique Vila-Matas
A Viagem Vertical, ed. Cosac Naify, 2004.
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