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22.11.13

o atordoamento da imagem




















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*série de fotomontagens que fiz recentemente. puro exercício para o projeto o teatro da memória. nov, 2013.
brincadeiras narrativas - expansão do sentido - apagamento - desordem.


5.8.12

sobre o escrever [como modo de ser]

Ensaio é imaginação. Se existe alguma forma de informação num ensaio, é sempre algo corriqueiro, e, se contém opiniões, não serão necessariamente confiáveis a longo prazo.
Um verdadeiro ensaio não serve a propósitos educativos, polêmicos ou sociopolíticos: é o movimento de uma mente livre enquanto brinca.
Embora escrito em prosa, está mais próximo da poesia do que de qualquer outro gênero.

Como um poema, um verdadeiro ensaio se faz com linguagem, personagem, atmosfera, temperamento, garra e acasos.

Cynthia Ozick
Retrato do ensaio como corpo de mulher
revista Serrote nº9


10.6.10

bruno e os alfinetes


ele tinha uns alfinetes e escrevia na cabeça deles.
mas as frases eram enormes.

era tanto a dizer, nunca caberia ali.

e mesmo assim ele insistia.

fazia tudo bem pequenininho,
pra caber ali.

ele escrevia como se falasse baixinho.
mal dava pra ouvir,
mal dava pra ler.

e mesmo assim ele escrevia
e dava os auto-falantes pras pessoas enxergarem depois.

aí elas iam escutando quase cegas.

e os alfinetes viravam pregos enormes,
pregando palavras na cabeça das pessoas.

...

e elas nunca esqueciam,
porque podiam pregar as palavras pregadas no peito.
[segurando a camisa no casaco].
e ouvindo baixinho o que elas não queriam esquecer.


3.6.10

a busca dos contrários


Disse Gonçalo M. tavares:

- Se um triângulo retângulo tiver saudades do tempo em que era um quadrado e se quiser voltar a ser de novo um quadrado, não deverá juntar-se ao que deseja ser (o quadrado), pois assim nunca ficará como deseja.

[...]

- No fundo - disse o senhor Valery, enquanto fazia outro desenho - devemos juntar-nos, sim, àquilo precisamente que não gostamos de ser, para assim nos conseguirmos trans-formar no que pretendemos.

- Isso é confuso demais, e também um pouco triste - disse, a concluir.

O senhor Valery depois não disse mais nada - já estava cansado e era tarde - porém o último desenho que fez foi o de um quadrado dividido em muitos bocadinhos.

Do mini-conto A tristeza
Gonçalo M. Tavares
O Senhor Valery, ed. Escritos, 2004.

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Intrigou-me um bocadito que o conto se chamasse A Tristeza, apesar mesmo da perspectiva ser um pouco triste.

O livro no geral fala de modos sutis e variados dos contrários, e fiquei a pensar nisso do encontro só poder ser gerado a partir do contrário.

Teria que ir na direção oposta ao que desejo?
Como buscar o desejo sem tentar "ser" o desejo?
Como vivê-lo, na busca?

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o senhor Valery gosta de responder e ter soluções.
hoje eu só quero perguntar.


22.4.10

lost in translation 3


Só me permito a colagem quando navego por cima.
quando penso transformá-la,
nem que seja pelo afeto.

esta canção tem a voz de Mark Lanegan:

my heart turns grey when I listen it,
and my eyes turns so shine.

escrever em outra língua é movimento de resistência,
é encontrar poesia no limbo.

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Carry Home

Come down to the willow garden with me
Come go with me
Come go and see

Although I've howled across fields and my eyes turned grey
Are yours still the same
Are you still the same

Carry home
I have returned
Through so many highways
And so many tears
Your letter never survived the heat of my hand
My buring hand
My sweating hand
Your love never survived the heat of my heart
My violent heart
In the dark

Carry home
I have returned
Through so many highways
And so many tears

Come down to the willow garden with me
Come go with me
Come go and see

Although I've howled across fields and my eyes turned grey
Are yours still the same

9.4.10

de uma inabilidade, salto de obstáculos


talvez o único caminho eficiente para se adquirir certas habilidades seja enganar-se.
fingir ser um outro, forjar habilidades que vêm de fora, pois não as possuímos.

fingindo constantemente, talvez um dia me torne de fato outra pessoa.

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uma questão:
se estas habilidades não estão em nós, onde estão?
como controlar certas forças numa espiral: de fora (no mundo) para dentro (em mim)?

perguntar-se como, não é obsessão por uma resposta.
é antes um exercício de busca.

cavar por todo o lado, fazendo uma bagunça absurda.
a terra vira trincheira.
depois vou caminhar tanto que os montes de terra se tornarão planos novamente.

e terei desparecido de vista.

por ter ido embora ou de tanto estar presente na mesma paisagem?
(caminhar é exercício de perder a pressa, é insistência).

podemos passar a vida insistindo por certas coisas.
só o tempo nos apontam as tolices, a desaparecer como memória desgastada.
as outras, ou aguardam o ponto de chegada ou se transformam.
sua força e importância é luz que se enxerga de longe.

1.3.10

o equilibrista.


não saber como ficar no meio caminho entre o amor e o não-amor é como não saber as instruções para perder-se.
é estar errante na neblina, que torna todas as paisagens as mesmas.
no entanto, podem ser os olhos embaçados...

pena para o equilibrista.
passos lentos e calculados que não permitem a gravidade da densidade.
e sempre cruzando, acaba chegando ao destino que é o mesmo do ponto de partida.

a ideia de voltar nada tem de estimulante.
melhor descer as escadas, exercitar a sagacidade.
descendo, terei muitas ruas para cruzar,
e ficarei triste pois as tentativas nada têm de arriscadas.
Aparentemente.


Atenção:
caminhante invisível caça indisfarçáveis grãos de areia para carregar.

Depois, enquanto equilibrista, irá despedir-se lentamente dos grãos.
Não porque a praia o agrade,
[os oceanos lhe acalmam, só que por vezes causam uma melancolia profunda]
mas porque ela pode lhe escapar aos poucos.


14.2.10

sobre o ver-se


publicar é dar um passo em falso no vazio.

é também ter outros olhos.
é também exercício do engano e do auto-conhecimento.

31.8.09

pequena literatura.


[na narrativa, é fácil perder-se do experimentalismo]


entristeço-me vagarosamente

distanciando-me dos dias
em que aprendi a alegria,
como algo simples de engendrar.

[descer o poço escuro sem voltar atrás,
prefiro caminhar a ser alice]


o que esqueço repetidamente que aprendi,
foi sobre a impermanência.

sente e espere

olhando o dia passar

com o céu rasgado em laranja-luz
lembro da errância dos dias.

espero contemplativamente.

fico plena mesmo
quando o pensamento se perde.

21.8.09

Things That Might Have Been

Estou no deserto
de paredes brancas e sol distante
analgésicos...

aqui os dias são mais os mesmos do que em qualquer outro lugar.

a noite mais azul.
o silêncio se alterna com as crises.

deserto sinuoso.

o deserto é ilha.

as terras avistadas são sempre distantes,
o olhar não sabe medir.
mal sabe esperar.

o problema das fotografias é que elas não são impressionistas.
não entendem a sutileza do tempo.
a falta de mudança de todos estes dias
sempre os mesmos, espirais.

um dia inteiro na poeira dos grãos grossos e densos.
enterro-me. como se me escondesse.

posso ver o raio mais intenso mesmo com os olhos fechados.
cada partícula é em mim uma palavra.
nossas temperaturas, as mesmas.

confundo-me com o som silencioso do deserto.
percorrendo as grandes distâncias,
som profundo nos tímpanos, surdo, indistinto.

para desaparecer só é preciso o desejo.
"não importa para onde vamos,
contanto que sem cautela".

16.8.09

o ato do desaparecimento:


Estou debaixo da chuva intensa.


mas apenas pelo tempo de me colocar no meio da rua,
e deixar-me encharcar por dentro.

Só depois de sentir as gostas mergulharem em cada poro,

que eu poderei olhar bem para a frente,

e desaparecer como a chuva forte de verão.

Apenas o asfalto testemunha a ausência.

sou todos os resquícios, as gotas em todos os lugares. vejo tudo claramente como o sol que chegará daqui a horas.

como a noite, vou obscurecer-me.

e como o sol da manhã, volto timidamente.

vai parecer que nunca fui embora.


todos os dias são sempre os mesmos.
e tão diferentes.

21.5.09

De uma dispersão.


não se trata mais de criar certezas.

mas de questioná-las, repetidamente.

de modo que os planos viram questões de múltipla escolha.

Disse certa vez: enganar-se como estratégia para viver.

Mas percebe de assalto, emborcada num perigo mais grave:
[que assalta a consciência de repente, mas corroi pelas beiradas]

desenganar-se como estratégia para não viver.

estratégia perversa.
uma erva daninha, que brota inesperadamente.

crescendo sem consentimento, vizinho indesejável.

se sou planta, nada faço.
se faço, tenho de expulsar logo.


Como os desejos viram ácido no estômago?


às vezes parece que o ácido cresce no lar sem sol.
num pote tampado. mofado.


Só que os raios, como boas setas, direcionam e dispersam.

...............

Talvez, toda a questão, se resuma à qualidade das pausas.

7.7.08

ensaio para dias nulos.


Mulher devastada.

Perdida nas noites
de luzes e sons ofuscantes.
Cidade particular de ritmo invertido.

Perco a conta dos meus dias, no exercício
de esquecer, tornando-me outra.

Devastada. Sentimento encontrado no fundo do mergulho.

As cores se confundem e se perdem no profundo da noite. e ainda vejo o azul violeta chegando, num movimento silencioso: os olhos caem antes do dia.

...as tardes transcorrem como um dia distante. transeuntes transitando, uma porta fechando. uma mão leva a xícara à boca, um leitor absorto, o sinal que abre e fecha.

Apagamento, diluição.
Olhar com distância para não sentir dor.
a dor dos outros dói menos.

E apenas outros. Não estou aqui, nem em lugar algum.
Assim, perco-me, estou a salvo. Apago progressivamente...
.percorro o limbo, não lugar.
Um dia regresso. ou recomeço.
recomeço-regresso de quem sou.

dias escorrem, esmaecidos.
.........................................................................................
tanto tempo passou. parece que foi ontem, parece que foram-se anos...

Nada acontece. Tudo se sente.