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1.1.14

as rotas afetivas


Como se dá a descoberta [e a permanência] de uma rota afetiva?

Talvez seja apenas o olhar atento ao passo insistente.
[e ainda que o caminhar cotidiano possa nublar esse olhar,
em dias amenos ele se revela com intensidade solar].

Para mim, a construção da rota levou a minha [ainda jovem] vida inteira.
tantas vezes espaçadas em tantos anos, 
uma rota perdida rotas, em dias, em experiências, em viver.

só depois de abandonar o cotidiano desta cidade, 
em retornos breves, 
é que pude perceber na insistência do passo errante,
nostalgico,
[mas também como aquele que caminha para pensar*]
sempre a mesma forma que o corpo risca:

esta é enfim, a forma da minha rota afetiva,
o traço do meu corpo em minha cidade natal.

_______________________
*citação do querido viajante Enrique Vila-Matas, em Doutor Pasavento:
"O que na realidade fazemos quando caminhamos por uma cidade é pensar."


22.11.13

o atordoamento da imagem




















___
*série de fotomontagens que fiz recentemente. puro exercício para o projeto o teatro da memória. nov, 2013.
brincadeiras narrativas - expansão do sentido - apagamento - desordem.


16.10.13

into the hole of space




En efecto, creo que fotografiamos no para recordar sino para olvidar. Si la memoria es como el firmamento, cada foto actúa como un agujero negro, absorbiendo y colapsando todos los recuerdos.
Joan Fontcuberta


_______
*Fotografia também de Joan Fontcuberta: Starfighter, 2001, da série Pin Zhuang.

6.11.12

o deserto esconde e releva, como a memória


Não sei quantas voltas ao mundo possa ter dado nessas semanas sem horas, náufrago de um horário desnorteado que me lembra quando adoecia na infância e o ar era imortal então, aqueles dias que logo voltaram para mim porque talvez nunca tenham ido completamente, estiveram sempre aqui, como um valioso tesouro enterrado no mais fundo da última gruta do deserto.

*Enrique Vila-Matas em Ar de Dylan, Cosac Naify, 2012.

13.10.12

o deserto abandono

















* Fotografias de Álvaro Sánchez-Montañés da aldeia abandonada de Kolmanskop, Namíbia.

.................
o deserto invasor é cheio, é o preenchimento do abandono.
é o suave tempo das dúvidas, das incertezas, dos apagamentos.
o esquecimento.
...
o deserto é caminhante, e procura o desconhecido.


3.8.11

Desertos sonoros.



De repente me dei conta de que demorei 17 dias para transitar a distância de 3 músicas.

Curiosamente, a travessia foi curta como um passeio.
[é que demorei muito tempo para abandonar Cassandra Geminni III].


Não abandonar a música como o apego a um território antigo em que
a dificuldade de atravessar a fronteira está na vertigem de ouvir,
de sempre escutar o que nos aviva.

Difícil talvez seja constatar que,
depois de cruzar a órbita,
o som vai se perder cada vez mais como memória-vertigem.

...
E o que parecia o único fogo de viver fique flamejando distante,
como a lanterna que ilumina o próximo farol.

Vou buscá-lo em outros albuns.
O mesmo, sempre tão diferente,
mascarado de novidade, amigo antigo.


............................................................................................

anexo:
Isto não poderia ter acontecido em outro lugar (música) diferente de Mars Volta,
que com tantas camadas de som que me leva para diversos lugares.
Viajar no som tem outra velocidade, e com eles minha vertigem é sempre um flâneur.


25.2.11

som e memória - espirais.


Que algumas músicas nos evocam outro tempo, alguma nostalgia, todos sabemos.
Mas ainda assim me impressiona que alguns detalhes sutis nos evoquem coisas muito específicas.
E que muitas delas talvez não façam o menor sentido,
que sejam tão particulares.

Por exemplo, esta música*:
Os acordes situados entre 0'48" e 1'01" são, para mim, o grunge em essência.

Não importa que os acordes não façam sentido, ou que nunca tenham estado presentes qualquer canção deste estilo (improvável).
O sentimento que aflora toda vez que escuto estes acordes resume todo o meu amor pelo grunge.
É o mesmo sentimento que sinto ao escutar diversas músicas e bandas do início dos anos 90.

Música é sentimento, não precisa e nem deve fazer o menor sentido.

* Comedown, Bush. Do primeiro album, Sixteen Stone.
Esta banda surgiu já durante a ressaca grunge, e foi ridiculamente taxada como uma tentativa sucessão ao Nirvana. Acredito que o som da banda confirma que o grunge já estava indo embora, e nela noto não mais do que uma forte influência. Uma boa influência.


15.1.11

A família melancolia


Está nos olhos, nos hábitos, na música.
Ser em tempo lento.
não ser como os outros.
ser como família, lembra as outras famílias.

espelho da felicidade/ espelho da infelicidade.

o bandolin agudo e triste
lembra os passos graves,
lembra a nostalgia ao revés.

perigo de mar, rodeado pelos tubarões.
perigo de neblina na montanha e no mar.

mas os risos são sinceros.
são risos rosados.

vontade de andar embora.
[Cartola way of life]

ficar é displicência, complacência, contemplar...

..................................

Há coisas para as quais raramente olhamos,
e quando olhamos, há náuseas.

Dentro do claro mais claro há o obscuro infinito.
Vou caminhar no sol, queimar o dia na areia.
sumir de vez na alegria do mar de verão,
pegar a estrada de volta da imersão.
[sinto frio no verão].

..............

como voltar para a rede,
se agora a vida só parece possível longe dela?
Laços que me enlaçam...
medo dos cortes
medo da franqueza atroz.

Estou quieta, mas quando falar, me abrirei em furacão.
perigo de mar, perigo de ser.
Quando não tenho vontade de falar,
vejo tudo e não vejo nada. neblina.

mar fim.
marfim paralisado.

...

pergunto-me, essencialmente,
o que vou levar,
e o que vou deixar na estrada.


25.9.10

os sonhos que abandonaram Buñuel


Disse ele:
como fazer para reeditar um sonho perdido?

Buñuel tem sonhos que duram anos.
Alguns parecem que estão ali desde sempre,
e alguns destes, o abandonaram.

sem despedida, sem porquês.
...
Algumas coisas já passaram, e eu não preciso mais sonhar com elas.

..................................

Outra frase que me agrada:

Vive-se no interior de si mesmo. As viagens não existem.

Sonhar é viajar no interior de si mesmo
e beira o assustador como alguns sonhos mostram-se reveladores.

E quando sobram apenas pequenas reminiscências desconexas,
que fazer?
O abismo se abre diante da impotência de desvendar o sonho.

É fácil não se importar, em breve serão esquecidos.
Lembrar e esquecer, rotina de todas as noites.

...

E se acordamos já no esquecimento?
Se o dia amanhece angustiado, com a falta das memórias que não vivemos...
como resolver o que não lembramos?

E se pertencem ao esquecimento, qual a razão do vislumbre breve, esmaecido e fugidio?

As rápidas lembranças matinais são saudade.
São o sentimento de falta.

Incompleta, durmo mais uma vez.
Os sonhos raramente são os mesmos, e terei novas saudades pela manhã.

...
O sonho repetido é obssessão.
É falta que insiste,
lembrança incompleta que não se perde.


3.8.10

para Buñuel, sobre a memória


... "Em contrapartida, preocupa-me muito, chego a me angustiar, quando não consigo me lembrar de um fato recente que vivi, ou então do nome de uma pessoa conhecida nos últimos meses, ou mesmo de um objeto. Subitamente minha personalidade se desmorona, se desarticula. Não consigo pensar em outra coisa e, ainda assim, todo o meu esforço, toda a minha raiva são inúteis. Será o começo de um ofuscamento total? Sensação atroz, ter que usar uma metáfora para dizer 'uma mesa'. E a mais horrenda e pior das angústias: estar vivo, mas não reconhecer a si próprio, não saber mais quem se é.

[...]

Indispensável e onipotente, a memória é também frágil e vulnerável. Não é apenas ameaçada pelo esquecimento, seu velho inimigo, como pelas falsas recordações que dia após dia a invadem.
[...]
A memória é perpetuamente invadida pela imaginação e o devaneio, e, como existe uma tentação de crer na realidade do imaginário, acabamos por transformar nossa mentira numa verdade. O que, por sinal, tem apenas importância relativa, já que uma e outro são vividos, ambos igualmente pessoais."

* Luis Buñuel (com escrita do querido Jean-Claude Carriere) em:
Meu último suspiro, ed. Cosac Naify, 2009.

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Sempre acreditei na ilusão como arma poderosa do viver.
A gente vive de acordo com o que acredita, e podemos realmente viver longamente numa história criada.

Mas isso todo mundo sabe, não?
Então, qual a importância desta discussão?

Como boa parte dos meus questionamentos em criação escrita, não desejo chegar num ponto de vista que se torne denominador comum para quem quer que reflita algo a partir daqui.

e hoje não quero argumentar, só afirmar:

ilusão é espaço de vivência.

[e de cantinho, posso ainda me perguntar:]
onde viver com a ilusão?
qual o espaço/ lugar deste viver?

a força com que vivo uma ilusão é a mesma de caminhar todos os dias.


21.2.10

Vila-Matas - Uma invenção muito prática


Mas logo me pareceu que era justamente o contrário. Era como se pedaços de sua memória estivessem se desprendendo de sua fronte e eu pudesse assistir ao insólito espetáculo de ver como, ali mesmo, naquele exato instante, sua mente ia se esvaziando em público, lentamente, para ficar em branco, despossuída tragicamente de toda lembrança.

não preciso viver, se puder sempre inventar.


Enrique Vila-Matas
trechos de Uma invenção muito prática
Suicídios Exemplares, Cosac Naify, 2009.

7.1.10

Vila-Matas - A hora dos cansados


Ah, como alguns livros são maravilhosos.

E o verão pede o mergulho.

Assim, seguirei com a rotina irregular de comentar algumas leituras que me atingem demais, como um raio apaixonado:


"Acelero o passo e, por alguns segundos, sinto um quase desfalecimento, e digo a mim mesmo que vou desabafar sobre o asfalto. Logo percebo que não é para tanto, afinal ainda sou jovem, o que acontece é que sempre me imagino à beira do desfalecimento porque, como mais ou menos intensidade, sempre estou cansado, cansado dessa cidade lamentável, cansado do mundo e da estupidez humana, cansado de tanta injustiça. Às vezes tento superar este estado e luto comigo mesmo, me imponho desafios como esse de persistir, sem objetivo algum, na perseguição de um velho nem um pouco cansado."

Enrique Vila-Matas
A hora dos cansados.
Suicídios Exemplares, Cosac Naify, 2009.



Desabar sobre o asfalto.
Posso imaginar a cena:
Numa tarde quente de verão, jogo-me sobre o asfalto.
simples assim: deixo-me em queda, quase que delicadamente.


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Lindo na literatura, mas irreal aos olhos.

Sempre me perguntei sobre o porquê de certos desejos serem afogados tão sem hesitação.
Algo por vezes visível no terrível senso-comum, muro que não nos permite observar os saltos destes desejos, sempre tentativas.

E quando não há hesitação [meu desejo desfalecido],
porque escapam à vista?

Não são nem mesmo como um cheiro estranho no ar,
algo abandonado da possibilidade de conhecimento.

[ uma vez que não é visto, mal pode ser investigado. Perde-se diluído no ar, sem rastros.]

Não. Repetem em voz alta.
Certos desejos mantém-se escondidos ou são afogados

[a loucura vive em terra firme].
São como resquícios distantes, poeira que não pode ser segurada.
Desejos mutando-se em ilusões,
adultos sombrios a povoar a memória.


Talvez terrivelmente.

Sofrem do mal de serem lembrados.

Como a memória cotidiana,
que nos assola como os dias nublados.

4.11.09

sombra tempo projetado


Esses dias vi o passado.

Continuei no mesmo caminho, fingindo não ter visto.
Se ele também me visse, simplesmente não saberia o que fazer.

A indiferença pode ser a paralisia do muito sentir.

E algumas coisas são mais vivas quando permanecem apenas na memória.

Como essa estratégia-ilusão:
Eu lembro só o que quiser.
E se ainda assim não conseguir fazer uma seleção bonita,
bem, meu bem, nenhuma realidade me dirá que estou enganada.


No fim, foi só uma reminiscência.
Pensei nos tantos anos que já passaram, nas tantas que já fui.

às vezes, o mundo dá voltas tão sutis,
que uma vida inteira se revela num olhar ignorado.

20.9.09

Ao rio turvo:


o que existe não existe ao mesmo tempo,
jaz guardado no profundo distante.

Curiosamente é quando lembramos que o esquecido se torna presente, e ao mesmo tempo, turvo.

a memória é algo turvo.
em permenente processo de distorção.

lembro turvamente, e clareando,
ou turvando,
logo vira outro.

o mesmo, mas outro.

então um fato pode ser milhares.
na minha lembrança ou na dos outros - ao mesmo tempo, quase.
na minha lembrança - ao longo dos anos, ou quem sabe mesmo dos minutos.

e quando lembrado, parece um oásis:
tão perto,
quase táctil.

para logo embaçar diante da seguinte pergunta:
era aquilo mesmo?

lembrei de tudo?
?

lembrar de tudo é um sonho no topo da montanha mais alta.
todos sabem o quanto é improvável
e mesmo assim não desistem de tentar.

curisosamente, há tantos caminhos para se chegar lá...

o que levamos nesse caminho?

e talvez, mais importante:
o que perdemos pelo caminho?


às vezes, quando o tocamos [o vestígio da memória] é que nos damos conta do quanto distante estamos do resgaste da origem da lembrança.

como o movimento:
esquecido - lembrar - esquecer.
ou:
esquecer - lembrar - esmiuçar - aniquilar.

.......................................

o rio turvo também é espiral.
levando tudo embora,
quebrando em pequenas partes para engolir o monte indissociável,
arrasta as memórias para o horizonte do mar.

bem à vista, mas inalcançável.

31.8.09

1ª resposta.





1ª e 2ª páginas de
Samuel Beckett
Novelas e Textos para Nada
Assírio e Alvim
Lisboa, 2006.

25.8.09

lost in translation 2


A memória é como a tradução.


pode boiar no lago
[às vezes, ao alcance das mãos]

mas perde-se facilmente no limbo.

só que, diferente,
não se recupera.

errância que dá voltas.

1.7.09

Lounge Act


Reaver uma música bem guardada.
curiosamente, fala do cheiro, e de experimentar...

makes me feel...

a mesma emoção, completamente diferente.

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outra coisa interessante, é rearranjar o sentido,
brincar com o ritmo e as palavras.
em favor de um sentido completamente novo,
totalmente emocional.

Experience anything you need
Wanted more than I could steal

algo que posso fazer com todas as imagens, todos os repertórios, todos os dias nulos, todas as poeiras, todos os arrependimentos, todas as cores dos dias mais cinzentos e do mais coloridos, todas as palavras espanadas, as não ditas, todos os papéis rabiscados de ilusões, todos os desejos, todos os encontros...

emoção em looping.

26.2.09

ocupar o vazio


talvez o problema seja mesmo a infinidade de possibilidades.


mas, às vezes, o vazio precisa ser sentido.
mergulhar e ser nada no vácuo.

criar sentido.

o sentido é o primeiro material de uma série, através dos quais criarei o tijolo,
com o qual construirei o muro.
o muro e toda a densidade para tapar o buraco.

cimentado de acordo com o meu estado de espírito.
nervos.

uma liga imprevisível.
o muro pode ser desfeito (pela vontade ou não),
ou talvez permaneça cimentado para sempre.


qual o proveito de reabrir um buraco?

veja bem, não é cavar um vazio.

e se reaberto, ainda será o mesmo?


de quantos tipos podem ser os nossos vazios?


é provável que eu encontre entulhos.
e memórias esquecidas.