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24.3.13

esperar e entender.



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o mergulho que também é pisar na terra.
o horizonte que também é mergulho no mar.


* frame do filme 7 Dias em Havana, composto por 7 curtas em 7 dias da semana, sendo este del diretor Elia Soleiman.

7.12.12

as rasteiras silenciosas de amor

são sempre insperadas, um golpe.
desconfigurando o movimento, o rumo, o horizonte.

amor - vertigem


um lapso temporal, sem precedência ou destino.


amor silencioso manifestando-se em voz alta.

vai-se embora tão rapidamente quanto chegou, sem dizer adeus.

adeus, adeus.

vá logo antes que eu sinta saudades.

....................


a rasteira silenciosa é aquela que nada diz,

[exceto: oi, estou aqui. existo em silêncio, e você ouve.]
um arrebatamento para outro lugar, um lapso da vontade.

...

só existimos para o outro quando somos percebidos.
e se eu não desejar ser percebido pelo objeto que desejo
viro redemoinho, abismo de vertigens.

...

ele é inativo como os mares sem ondas
permanente na distância.
mar de profundidade escondida na calma superfície
mar negro - para esconder o sentimento
o movimento que só existe por dentro - somos peixes abissais.

...

abissal é o desejo pelo que não se pode atingir,
desejo pelas profundidades nunca alcançadas
distantes com o horizonte.
miradas como o oásis.

...

mas já não miro mais o oásis.
e não tenho medo de navegar as ondas
de percorrer o instinto faminto de desejar.

o desejo me leva para outros mares.

e se eu levo golpes, é porque evito olhar para trás.



6.11.12

trabalhar em silêncio

sou formiga ruminante.

trabalhando todos os dias, em silêncio, 
devorando lentamente os territórios ao redor.

lentamente.
quando o tempo discorre em ansiedade tudo parece lento ao redor.

às vezes a vertigem não se dá pelo movimento brusco,
mas pelo excesso da tentativa de observar o que discorre lentamente.

...
esqueço-me que ruminar é um processo.
é caminhar todos os dias na direção do desejo.

é sossegar com a mudez,
devorar com os olhos e com o pensamento.

é digerir criando.
desenhando a paisagem de viver
habitando o sonho, a busca, todo o horizonte.

criando - construindo o solo para cada próximo passo na ponte de estrada vertigem.
[pois caminhar é a parte invisível do salto].

ruminando-digerindo-criando.

até todo o alimento virar apenas uma voz.
que soará tão alta
a atravessar os desertos, os mares, as estradas, as vertigens.
até o horizonte mar.

13.10.12

o deserto abandono

















* Fotografias de Álvaro Sánchez-Montañés da aldeia abandonada de Kolmanskop, Namíbia.

.................
o deserto invasor é cheio, é o preenchimento do abandono.
é o suave tempo das dúvidas, das incertezas, dos apagamentos.
o esquecimento.
...
o deserto é caminhante, e procura o desconhecido.


5.8.12

tensão superficial*

escrever em mares graves é mais fácil do que escrever na superfície constante.

porque os traços passados também são passos acumulados.
sofrem adquirindo peso,
testam a tensão superficial.

a superfície de oceano não nos deixa deslizar.
patinar no mundo com a alegria
de não perceber cada grão de areia acumulado no passeio de viver.

o oceano de águas calmas só nos permite caminhar.
tocando cada centímetro com cuidado
percebendo muito bem todo o universo entorno.


...

mas tanta atenção dada acima da superfície mal nos deixa enxergar o que há embaixo dela.
os mares profundos, oceanos densos de nevoeiro.

o nevoeiro profundo, grave e abissal.
com todo o peso das coisas não ditas,
o mar profundo é silencioso.

um silêncio não vazio, um silêncio mudo.
oceano nevoeiro.
turvo de tudo o que não queremos ver, não queremos sentir, não queremos ver.
pela falta de admitir, pela falta de olhar para si.

em mares profundos, é melhor ser peixe abissal.
com suas lanternas que percebe para onde navega, sempre buscando a sua luz.
a luz que não está em nenhum outro lugar além de si.

...

o peixe abissal vive apenas nas profundezas, não pode subir a superfície.
[a problemática dos relacionamentos].

mas protege o profundo, lança luz às densidades.

[um desejo:]
seus raios de luz chegam à superfície sem tocar a tensão,
lançando luz ao caminhar cego de tatear,
iluminando a passagem dos dias,
pulverizando os grãos dos dias caminhados no ar.

para que a escrita seja escrita de luz. 
comunicando os mares graves e as águas calmas de ser.
leve como a poeira que a revela, que a compõe.


*aquele fenômeno que estudamos na escola, que nos conta sobre a habilidade dos mosquitos pousarem na água.
[ser leve demais e não romper o hímen da água].
**uma questão, talvez sintomática do ser: para algumas pessoas, o punho dói por escrever de forma leve-constante. e só quando escrevemos com a mão pesada é que o punho para de doer.


28.5.12

o deserto colecionado

o deserto dos outros:
[não consigo deixar de me perguntar... qual a diferença do deserto rochoso, diferente do deserto areia, areia-movediça...]



a desert feeling.
 ·  · 


4.4.12

as águas agitadas em mares profundos

são águas sonoras graves,
ecoam em silêncio.

fingem-se de calmas.
são torpor em propagação.

...

o tempo passa em outro tempo,
em ar [não ar],
e tudo o que couber em um respiro [em eco].

20.3.12

Ilusão mental e des-ilusão meditativa *

cuide para a hibernação não virar o sono em espiral.
adentrando-se terrivelmente em si mesmo.

espiral em reverso, só tem olhos para o exterior.
enquanto o interior afoga-se em si mesmo no azul profundo.
[azul profundo de oásis-abissais]

no espiral em reverso, hibernamos com olhos distantes.
olhos imóveis.
olhos esquecidos.

...não de si mesmo, mas de sua propulsão interior.
[você nunca achará nada no exterior que não haja em ti mesmo:
procure com olhos interiores].

curiosamente, a paisagem de encontrar-se é a mesma de onde nos perdemos.
[o azul profundo é neblina negra de olhos fechados]
no mar sem peixes abissais, apague a luz.

feche-se em seu interior.
respire e observe o seu movimento, e a falta de movimento.
respire e infle os pulmões
pulmões de hélio que voam pelo ar,
sugando-o da espiral invertida,
elevando-o na direção da ponte.

quando eu me movimentar,
serei outro como sempre estive em direção de ser.

estaremos todos muito acordados,
correndo na direção de nós mesmos,
e de todo o mundo ao qual estamos ligados, afinal.


* título de uma palestra TEDx por aí, veja aqui.


3.1.12

oh Beckett, sempre Beckett...


Nunca ter tentado. Nunca ter falhado.
Não importa. Tentar outra vez. Falhar
outra vez. Falhar melhor.

Samuel Beckett, Worstward Ho, 1983*

*No livro: In a given situaticion, Francys Alÿs, Cosac Naify, 2010.


2.10.11

o deserto silêncio

ou O Deserto Imaginado:

John Lurie, um cara de melodias fantásticas tem duas músicas são propostas para ouvir em sequência:



entre a ação de sequestro [levo embora comigo o meu objeto de desejo] e o sonho vivido, um breve silêncio corta as duas músicas.

um milhão de possibilidades ao atravessar o deserto silencioso.


*John Lurie, ouvir o álbum African Swim and Manny & Lo.
Delírio.


8.3.11

geografia íntima.


"Viajar é, sobretudo, um clima, um estar a sós, um estado discretíssimo de melancolia e solidão."

Enrique Vila-Matas
A Viagem Vertical, ed. Cosac Naify, 2004.


25.2.11

peixes abissais em ondas sonoras.


Às vezes tenho certeza de que gosto mais dos sons graves pela qualidade algo grave dos sons densos.
Sons agudos são ligeiros e doloridos, nos tocam em superfície ou em brevidade.

Os sons graves são rebeldes em sono profundo.
Possuem o caminhar pesado, e a gravidade das palavras não ditas.

Sons graves confundem-se com mais facilidade.
E toda vez que me perco no som estou no mar.

Quero ser peixe abissal, perder-me em profundezas.
Quero que uma pequena luz me guie em mundo infinito.
Os sons graves me confortam, estou na cama.
Dormir em ondas, viver anos sem encontrar os outros.

Afundar-se, encontrar-se.

Só consigo falar nas profundezas, sons indistintos chegam à superfície.


15.1.11

A família melancolia


Está nos olhos, nos hábitos, na música.
Ser em tempo lento.
não ser como os outros.
ser como família, lembra as outras famílias.

espelho da felicidade/ espelho da infelicidade.

o bandolin agudo e triste
lembra os passos graves,
lembra a nostalgia ao revés.

perigo de mar, rodeado pelos tubarões.
perigo de neblina na montanha e no mar.

mas os risos são sinceros.
são risos rosados.

vontade de andar embora.
[Cartola way of life]

ficar é displicência, complacência, contemplar...

..................................

Há coisas para as quais raramente olhamos,
e quando olhamos, há náuseas.

Dentro do claro mais claro há o obscuro infinito.
Vou caminhar no sol, queimar o dia na areia.
sumir de vez na alegria do mar de verão,
pegar a estrada de volta da imersão.
[sinto frio no verão].

..............

como voltar para a rede,
se agora a vida só parece possível longe dela?
Laços que me enlaçam...
medo dos cortes
medo da franqueza atroz.

Estou quieta, mas quando falar, me abrirei em furacão.
perigo de mar, perigo de ser.
Quando não tenho vontade de falar,
vejo tudo e não vejo nada. neblina.

mar fim.
marfim paralisado.

...

pergunto-me, essencialmente,
o que vou levar,
e o que vou deixar na estrada.