23.3.09

In Limbo

(para Radiohead)

Ruídos horizontais e verticais. E outros à beira do invisível.
Uns caminham tranquilamente. Outros cortam. Finos, curtos e densos.

Combinam-se.

O corte é
repentino,
abre a fenda,
chama para a profundidade.
mas não agride.

tenho a voz que perdura pela eternidade dos meus ouvidos.
A onda não pára de se propagar,
volta e reafirma.

Entra na ferida.
a voz revela outros estados, no mesmo.

O limbo tem a calma de um mundo sem limites precisos,
a calma do que vai até aonde a vista alcança.

mas também é o espiralado redemoinho onde nos perdemos...
tranquilamente, entregues.

9.3.09

outra reflexão, do vazio.


Ele também pensou no vazio:

"E isso porque o vazio sempre foi minha preocupação constante; e eu considero que, no coração do vazio, assim como no coração do homem, as chamas ardem."
Yves klein - Chelsea Hotel Manifesto, 1961.

e ele falou muito do imaterial e algumas vezes do espaço.
e do espaço vazio.

o que me levou a pensar que o vazio é ocupado por muitas coisas, diversas.
[em diversos espaços e em diversas temporalidades].

pra mim, a questão mais interessante,
muito além de ocupar o vazio
é, num vazio já ocupado, distinguí-lo.

exercício de regular o foco.

mas me parece que, toda vez que se regula o foco,
diversas presenças são acobertadas de neblina.

assim, regular o foco é como regular a presença,
ao tornar algo mais perceptível, uma escolha.

me interessa ainda mais o que é deixado na neblina.

6.3.09

encontro sem sair do lugar:


"Descobrirão, a partir das coisas ordinárias, o sentido de ser ordinário. [...] No entanto, a partir do nada, vão inventar o extraordinário e então talvez também inventem o nada."
Allan Kaprow - texto: O legado de Jackson Pollock.

O encontro também pode ser uma descoberta,
um novo olhar.


s/ título


"A própria concepção habitual do quadro deve ser abandonada; o espaço-superfície só interessa ao processo auto-analitico como 'espaço de liberdade'.
E também não deve preocupar-nos a coerência estilística, pois nossa única preocupação possível é a pesquisa contínua, a contínua auto-análise, com a qual, apenas, podemos chegar a fundar morfemas 'reconhecíveis' por todos os âmbitos de nossa civilização."
Piero Manzoni, em 1957

Depois, Allan Kaprow disse algo sobre sermos simplesmente artistas, e disse: "Tudo na vida estará aberto para eles."

26.2.09

ocupar o vazio


talvez o problema seja mesmo a infinidade de possibilidades.


mas, às vezes, o vazio precisa ser sentido.
mergulhar e ser nada no vácuo.

criar sentido.

o sentido é o primeiro material de uma série, através dos quais criarei o tijolo,
com o qual construirei o muro.
o muro e toda a densidade para tapar o buraco.

cimentado de acordo com o meu estado de espírito.
nervos.

uma liga imprevisível.
o muro pode ser desfeito (pela vontade ou não),
ou talvez permaneça cimentado para sempre.


qual o proveito de reabrir um buraco?

veja bem, não é cavar um vazio.

e se reaberto, ainda será o mesmo?


de quantos tipos podem ser os nossos vazios?


é provável que eu encontre entulhos.
e memórias esquecidas.

18.2.09

reflexões sobre Miller IV


"Nunca houve um sonho de vida esplêndido demais, deslumbrante demais, para se encaixar na imagem da realidade. Aqueles que temem estão condenados; aqueles que duvidam, estão perdidos."



"estar perdido" me parece algo bem distinto de "perder-se".

estar perdido é como o minotauro no labirinto. espera por ser encontrado, mas algo mais: não consegue sair.

perder-se é entregar-se. quase que com uma certeza de jamais estará perdido.
pelo contrário, perder-se para não estar perdido.

movimento contra estar parado.

reflexões sobre Miller III


"Porque somos tão cheios de restrições? Porque não nos entregamos em todas as direções? Será medo de perder a nós mesmos? Até que nos percamos, não pode haver esperança de nos encontrarmos. Somos do mundo e para entrar plenamente no mundo precisamos primeiro nos perder nele. O caminho do céu nos leva através do inferno, é o que se diz. O caminho que tomamos não tem importância, contanto que deixemos de percorrê-lo com cautela." !

Henry Miller - O Mundo do Sexo.

alguns comentários:
1 - há algum tempo venho dizendo coisas sobre: desencontro para o encontro.
2 - do contentamento em encontrar confirmado num pedaço de papel que vêm sobrevivendo ao tempo. sim, alguém concorda, eu sei e quero me ater à idéia de que ele não mudou de opinião. ilusão sim!
3 - porque sem cautela podemos sentir. se eu pensasse, não me perderia.

mais importante:

entrega. certeza mesmo sem ter certeza. ir e deixar. certeza para o abandono.
o que o céu significa aqui?
provavelmente é o menos relevante.