4.8.11

marfim paralisado (e o mar)


Às vezes a paralisia pode nos tomar de assalto de uma maneira irreparável.

Quase sempre inadvertidamente, ela me pega pelos pés.
como o repuxo do mar, arrastando o solo debaixo do meus pés, enterrando-me.

Enterra-me pelos pés.
Ninguém viu meu corpo enterrado, porque ele parece livre.

...

O enterro é ilusão.
Solto facilmente meus pés, a areia nunca pára de mover-se.

... é que é a natureza mover-se, mesmo que não seja na direção do desejo.
[eu só me enterraria se nunca me movesse, mas a areia e a água são fortes porém lentas, e toda vez que olho pro chão e olho pro mar tenho vontade de correr...]

Desejo-megulho.

Fixa olho pro mar, já estou paralisada diante do desejo.
Se a areia me engole, é porque imóvel eu me afundei no aconchego tentador da areia fina, mole como o mergulho.

O desejo e a paralisia andam, assim, de mãos dadas.

me enlaçam em nuvens,
me congelam de olhos fechados na ventania do mar.

........................

Toda vez que venta areia nos olhos olhamos rápido e automaticamente para o outro lado.
tapo os meus olhos, como se o desejo não estivesse mais ali.
o corpo agita-se em ventania,
e rapidamente corremos para o outro lado.


[a tragédia da falta de ilusão é que]
só consigo mergulhar quando o mar já não espera mais por mim.


3.8.11

Desertos sonoros.



De repente me dei conta de que demorei 17 dias para transitar a distância de 3 músicas.

Curiosamente, a travessia foi curta como um passeio.
[é que demorei muito tempo para abandonar Cassandra Geminni III].


Não abandonar a música como o apego a um território antigo em que
a dificuldade de atravessar a fronteira está na vertigem de ouvir,
de sempre escutar o que nos aviva.

Difícil talvez seja constatar que,
depois de cruzar a órbita,
o som vai se perder cada vez mais como memória-vertigem.

...
E o que parecia o único fogo de viver fique flamejando distante,
como a lanterna que ilumina o próximo farol.

Vou buscá-lo em outros albuns.
O mesmo, sempre tão diferente,
mascarado de novidade, amigo antigo.


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anexo:
Isto não poderia ter acontecido em outro lugar (música) diferente de Mars Volta,
que com tantas camadas de som que me leva para diversos lugares.
Viajar no som tem outra velocidade, e com eles minha vertigem é sempre um flâneur.


29.6.11

Instant Karma

Para purificar-se num instante:

Well we all shine on!!!
Like the moon, and the stars, and the sun...

A coisa mais bonita desta música é que John Lennon a canta com tanta força, como se ela fosse proporcional à possibilidade do desejo realizado.

8.6.11

o lugar no não-lugar

[lost in translation 5]

estar entre os seus, estrangeiros, todos eles.
...

o não-lugar como ponto zero.

o não-lugar como espaço de estar. zero como o lugar, olhos abertos, copo esvaziado.
toda a intensidade vivida no não-lugar nos atravessa como a uma holografia.
intenso, vívido, etereo.

permanente depois de vivido.
surreal na pele.

...................

como se situar no não-lugar?
e, se isso soa tão simples e espontâneo, como situar-se aos lugares?
[os de sempre, em que vivemos]

como voltar para o real ludibriado, deixar aquela não-casa para trás?

minha casa é o lugar em que nunca estive. minha casa é viver o lugar como cada não-lugar. estrangeirismos...
ser estrangeiro nada mais é do que olhar de fora. dentro.

o não-lugar é lugar do impossível, de estar em todo canto, de ver enquanto vive cego, o olhar zero a cada dia.

...................

vou estar impossível, e tão real que os dias não vão se dar conta de que me mudei.



30.5.11

18.5.11

o pára-quedista.

O primeiro passo é o salto no escuro.

A queda-livre é curta.
Não reconhecemos o entorno, as sensações se confundem na vertigem.

Aterrizar é chegar é de fato?
O reconhecimento é lento e nublado como a vertigem.
Reconhecemos enquanto agimos, o ato de viver parece incerto como o passo seguinte, enquanto a neblina não se desfaz.

A vantagem de viver na neblina é a novidade a cada passo,
A novidade do que já parecia tão antigo, tão sabido.

Viver na neblina é aprender nas velhas manias, é revisar o viver.
Com o olho novo, quem sabe não reconheço algo que sempre esteve ali, algo que nunca havia percebido.

É cansativo saltar todos os dias...

(então aproveite o salto diferencial!)
Vertigem é deleite.