2.2.12

homens-máquina, insones hibernantes

Serge Daney comenta sobre alguns grandes cineastas franceses*, nos anos 70 (segundo ele, um período-deserto):

...eles jamais pararam de filmar. Melhor: jamais pararam de experimentar.
[...]
tais autores souberam cosnstituir sua própria máquina de produção, ou, como diz Rivette, seu "microssistema". Uma máquina de produzir um filme, mas sobretudo de produzir a posssibilidade de outro filme, em seguida.
[...] 2x
eles pensaram "small is beautiful";
eles estiveram, para retomar a bela expressão de Deleuze, "muito povoados do interior de si mesmos".

e ainda:
O que caracteriza essas máquinas tão diferentes umas das outras não é seu tamanho (em geral, elas são pequenas), é que são máquinas que permitem desvios.


Quero tornar-me homem-máquina,
meu interior é o deserto onde hiberno.
No interior do deserto as dunas são desvios,
como linhas originais
que extrapolam o corpo-máquina, para o horizonte.

Serei a minimajor do sonho,
construirei os passos para o exterior,
onde a paisagem é orgânica e feroz
feroz como a fome criativa
a faísca que produz os desvios que me levam naquela direção tão turva, e tão clara.

A paisagem é sonora e color.
e o mergulho desviante é linha de percurso.

...
o que ele quer dizer, também, é que:
Porque a verdadeira riqueza é o tempo, o tempo que um artista precisa para trabalhar um material, para acumular experiência.


* Godard, Vecchiali e Rohmer, mais especificamente.
** Fonte: Serge Daney. A Rampa: Cahiers du Cinéma, 1970-1982. Cosac Naify, 2007.

29.1.12

o deserto estético é morno.

Para o cinema francês, os anos 1970 teriam sido a década pós por excelência: pós-Nouvelle Vague, pós-68, pós-moderno. Sem um corte profundo, um movimento, uma escola: quase um deserto estético. Não sabemos no que essa década antecipa os anos 1980. Saberemos mais tarde o que ela terá prefigurado. Enquanto espera, é preciso tentar uma descrição: nem a frio nem a quente: a morno.

*Serge Daney. A Rampa: Cahiers du Cinéma, 1970-1982. Cosac Naify, 2007.


O deserto é ausência, é limbo.
É morno porque próximo da condição de não sentir, de estar anestesiado.
anestesiado é não sentir, não perceber, não ver.
mas é também hibernar.
[enquanto hiberno acumulo toda energia de que precisarei depois...]

O deserto tem tons pastéis porque nada tem destaque no limbo.
E assim poderemos dormir em espiral nos dias mornos...

Atravessar o deserto é como viver no oásis.
Como um sonho onde toda energia gasta se renova ao acordarmos.

O limite do deserto. ponto de partida.
A fronteira do deserto - ponte para o salto.


13.1.12

o buraco negro escondido

às vezes um sentimento mal resolvido pode fazer mal.
como uma doença incubada,
ou uma recaída de gripe.

esconde-se uma ferida, um buraco negro.
o buraco negro espiralando, turvando a mente,
sugando tudo à sua volta.

um buraco negro esconde-se como a noite.
o corpo noite esconde o buraco, com a alegria e a tristeza dos dias.
com os dias corridos
com os dias lentos
com os dias objetivos
com os dias de agradável torpor
com os dias subjetivos...

o buraco negro subjetivo revela-se inesperadamente.
às vezes nas situações mais embaraçosas,
às vezes nas situações menos propícias.
sempre inadvertidamente, e quase sempre um choque:
rasgando o dia-a-dia, sequestrando-me do lugar onde sentei.

e é por isso que preciso caminhar, caminhar...
escrever porque cada palavra é um passo para longe do buraco que tudo suga,
porque escrever é ir de encontro não importa para onde.

depois, quando estiver cansada demais vou me sentar novamente
e com toda calma olharei para o buraco-ferida.
[estarei tão pesada que ele não poderá me sugar].

e assim, espero que o buraco cure-se como a gripe,
que vai-se quase sozinha.
se não, a convivência terá de tornar-se amena.
como os comprimidos
a comprimir todos os efeitos, todas as dúvidas, toda náusea mental.


3 situações (e todas a mesma)




ver a mesma coisa em todos os lugares como sinais, indícios.
um dia, tudo grita ao redor.
silenciosamente.