21.12.09

viajar, perder países.

[deveria ser uma homenagem à Fernado Pessoa,
mas é antes ao Enrique Vila-Matas]


as estradas que correm são as mais agradáveis.
mudam de rosto o tempo todo.

e são as mesmas.
me lembram que correr é encontrar o novo.
correr para o foco,
diafragma cantante fechado de ar.

até o ponto do desparecimento.
para dentro
encontrar-se.

viajar, perder países.
perder-me dentro do meu próprio mapa.

fechar os olhos é apagar-se.

9.12.09

correr

nunca deixei tanto para trás, andando tão calmamente.
[como se me abandonassem na espera calma de que eu vá voltar].

COMO RECONQUISTAR OS DESEJOS ABANDONADOS?

nem está na hora do abandono, e já sinto o pesar da distância.

[e escrever é a grande ilusão.]


há diversas vontades flutuantes, embaçadas no sereno.
todas são a mesma vontade.
o meu apêndice silencioso que morro de medo de arrancar.

flutuam na estranheza de vê-las um tanto distantes,
sem deixar uma saudade doída.


não há conquista sem pesar, não há renascimento sem morte, uns diriam.
mas todos dizem.
as vozes altas demais sempre abafaram meus ruídos.
e não se pode tapar os ouvidos como quem fecha os olhos.
entretanto, posso ser cega como eu quiser.

[o grande truque da ilusão.]

é assim que minha parte mais prezada vai dormir.
se minha força sempre foi minha fraqueza,
veremos como ela irá acordar.
o leão que desintegra-se em poeira, ocupa todo o ar.

Desejo pétalas.
e que o som silencioso do sono irrompa a imensidão do fundo do meu olhar.

2.12.09

dormir e acordar

o que escrever já não é tão importante quanto escrever.
escreverei linhas todos os dias, ser todo e todo
em linhas que perdurarão até que o último ponto seja pesado demais para arrastar a linha
que cai em queda suavemente
tempestiva pelo ar.

pelos ouvidos.
pela cegueira da brancura do papel.

o vídeo como admirador fixo.
sempre esquece que não dá conta do escrever,
lembra todos os dias que mal sai do lugar.
[não sai do lugar porque se esquece de esquecer-se].

em compesação, a noite é escura demais e as nuvens passam muito depressa.

25.11.09

cortar os fios.


Tenho fios.


Linhas discretas presas em lugares diversos.

Densidades e amores e desamores diversos.

... desejos, vontades, manias, princípios

distâncias, resistências.




Ando correndo, e alguns estão arrebentando.

4.11.09

sombra tempo projetado


Esses dias vi o passado.

Continuei no mesmo caminho, fingindo não ter visto.
Se ele também me visse, simplesmente não saberia o que fazer.

A indiferença pode ser a paralisia do muito sentir.

E algumas coisas são mais vivas quando permanecem apenas na memória.

Como essa estratégia-ilusão:
Eu lembro só o que quiser.
E se ainda assim não conseguir fazer uma seleção bonita,
bem, meu bem, nenhuma realidade me dirá que estou enganada.


No fim, foi só uma reminiscência.
Pensei nos tantos anos que já passaram, nas tantas que já fui.

às vezes, o mundo dá voltas tão sutis,
que uma vida inteira se revela num olhar ignorado.

afundar /adentrar

Não existe aprofundamento sem abandono.

Fechar os olhos, ignorar o redor.
Mirando em frente, ao som de
just a perfect day.

Mergulho-abandono.

A flecha mal tem tempo de se despedir do arco.
O fio do arco que ela mal conhece, apesar de do toque, apesar do impulso.


Não se pode ter medo dos desejos,
menos ainda duvidá-los.
há apenas que desejar conhecê-los.
como o amor novo, aquele que mesmo conhecido eternamente se revela.

I was a stranger, and I'm a stranger to me yet.

22.10.09

olhar zero

nunca existe, mas sempre uma tentativa.

Tenho me sentido como uma criança.
Nada pueril, mas alguém que está no mundo muito jovem.

entrando, agora.


definitivamente, nos últimos meses, algo se perdeu
[algo que queria muito perder].

não sei para onde foi.
às vezes penso receosa que está em minha mãe.
às vezes fantasio que o que está perdido escondeu-se de mim.

virá agarrar meus pés à noite.
tomará conta do meu corpo aos olhos dos outros mais rápido do que poderei me dar conta.
[a saber: sempre foi assim, por isso talvez a paralisia me assaltava]


são só temores ligeiros. sonhos do qual sempre desperto.
rapidamente e sem susto.

curiosamente, a calma presente no fundo dos meus olhos combina com o estado infância que tem se mostrado sob o sol dos meus dias recentes.


me sinto diante do mar, do horizonte infinito-indefinido.
pronta para me perder.
com a clareza absurda de quem está muito bem onde está.