colapso é afogamento.
17.10.10
9.10.10
Hibernar
Às vezes, tenho a sensação de que passei estes anos todos dormindo.
Todos os dias testo uma nova forma de acordar.
Mas às vezes, receio cair no sono profundo tão espontaneamente quanto acordei.
[estarei de fato acordada neste momento?]
Receio os cochilos,
o hábito de dormir sem perceber.
No entanto, não se vive o tempo todo acordado.
Desejo o sono como gesto de liberdade,
o labirinto do sono como caça-palavras,
desperta como água fria no corpo.
25.9.10
os sonhos que abandonaram Buñuel
como fazer para reeditar um sonho perdido?
Buñuel tem sonhos que duram anos.
Alguns parecem que estão ali desde sempre,
e alguns destes, o abandonaram.
sem despedida, sem porquês.
...
Algumas coisas já passaram, e eu não preciso mais sonhar com elas.
..................................
Outra frase que me agrada:
Vive-se no interior de si mesmo. As viagens não existem.
Sonhar é viajar no interior de si mesmo
e beira o assustador como alguns sonhos mostram-se reveladores.
E quando sobram apenas pequenas reminiscências desconexas,
que fazer?
O abismo se abre diante da impotência de desvendar o sonho.
É fácil não se importar, em breve serão esquecidos.
Lembrar e esquecer, rotina de todas as noites.
...
E se acordamos já no esquecimento?
Se o dia amanhece angustiado, com a falta das memórias que não vivemos...
como resolver o que não lembramos?
E se pertencem ao esquecimento, qual a razão do vislumbre breve, esmaecido e fugidio?
As rápidas lembranças matinais são saudade.
São o sentimento de falta.
Incompleta, durmo mais uma vez.
Os sonhos raramente são os mesmos, e terei novas saudades pela manhã.
...
O sonho repetido é obssessão.
É falta que insiste,
lembrança incompleta que não se perde.
21.8.10
correr.
importa mais a questão:
de onde estou correndo,
ou para onde estou correndo?
...
fugir é caminho para encontrar?
talvez, o importante mesmo seja estar correndo.
a vida é busca, é nela que eu corro.
15.8.10
retroprojetar
Tenho um desejo que virou minha sombra.
Com o sol logo atrás, acabo sempre caminhando sobre ela.
O desejo como sombra é algo que não se consegue esquecer.
Sempre nos acompanha,
e nunca é palpável
nunca se torna real.
O desejo como sombra também é algo que nos segue.
Possuímos afinidades e prefere a minha companhia mais do que todas as outras.
Mas sua matéria é outra,
o encontro é desarticulado.
[se o encontro é desarticulado, seria realmente um encontro?]
...
Como abandonar a sombra?
Desejo ficar debaixo do sol a pino,
quente e cegante.
Depois de cega, verei tudo em branco.
As sombras serão apenas contornos cinzas e distantes.
Se eu não enxergar o desejo, ele simplesmente não estará mais ali.
Terá se convertido em outros tantos.
sombras brancas e delicadas de orvalho.
gotas que caem nos meus olhos enquanto estou dormindo.
água do rio que irei nadar depois de atravessar o deserto.
14.8.10
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