nevoeiro que transforma escrita em som
em sensação,
densidade de ouvidos,
densidade de poeira, de ar, de respirar, de viver.
tudo é lúcido e nebuloso.
é no olho tátil que atravessamos o deserto,
é no ouvido tátil que entendemos a geografia efêmera do deserto.
...
*a canção do deserto em nevoeiro tem um nome e um som:
Jeremy's Storm
Tame Impala no álbum Innerspeaker
7.8.12
5.8.12
sobre o escrever [como modo de ser]
Ensaio é imaginação. Se existe alguma forma de informação num ensaio, é sempre algo corriqueiro, e, se contém opiniões, não serão necessariamente confiáveis a longo prazo.
Um verdadeiro ensaio não serve a propósitos educativos, polêmicos ou sociopolíticos: é o movimento de uma mente livre enquanto brinca.
Embora escrito em prosa, está mais próximo da poesia do que de qualquer outro gênero.
Como um poema, um verdadeiro ensaio se faz com linguagem, personagem, atmosfera, temperamento, garra e acasos.
Cynthia Ozick
Retrato do ensaio como corpo de mulher
revista Serrote nº9
Um verdadeiro ensaio não serve a propósitos educativos, polêmicos ou sociopolíticos: é o movimento de uma mente livre enquanto brinca.
Embora escrito em prosa, está mais próximo da poesia do que de qualquer outro gênero.
Como um poema, um verdadeiro ensaio se faz com linguagem, personagem, atmosfera, temperamento, garra e acasos.
Cynthia Ozick
Retrato do ensaio como corpo de mulher
revista Serrote nº9
tensão superficial*
escrever em mares graves é mais fácil do que escrever na superfície constante.
porque os traços passados também são passos acumulados.
sofrem adquirindo peso,
testam a tensão superficial.
a superfície de oceano não nos deixa deslizar.
patinar no mundo com a alegria
de não perceber cada grão de areia acumulado no passeio de viver.
o oceano de águas calmas só nos permite caminhar.
tocando cada centímetro com cuidado
percebendo muito bem todo o universo entorno.
...
mas tanta atenção dada acima da superfície mal nos deixa enxergar o que há embaixo dela.
os mares profundos, oceanos densos de nevoeiro.
porque os traços passados também são passos acumulados.
sofrem adquirindo peso,
testam a tensão superficial.
a superfície de oceano não nos deixa deslizar.
patinar no mundo com a alegria
de não perceber cada grão de areia acumulado no passeio de viver.
o oceano de águas calmas só nos permite caminhar.
tocando cada centímetro com cuidado
percebendo muito bem todo o universo entorno.
...
mas tanta atenção dada acima da superfície mal nos deixa enxergar o que há embaixo dela.
os mares profundos, oceanos densos de nevoeiro.
o nevoeiro profundo, grave e abissal.
com todo o peso das coisas não ditas,
o mar profundo é silencioso.
um silêncio não vazio, um silêncio mudo.
oceano nevoeiro.
turvo de tudo o que não queremos ver, não queremos sentir, não queremos ver.
pela falta de admitir, pela falta de olhar para si.
em mares profundos, é melhor ser peixe abissal.
com suas lanternas que percebe para onde navega, sempre buscando a sua luz.
a luz que não está em nenhum outro lugar além de si.
...
o peixe abissal vive apenas nas profundezas, não pode subir a superfície.
[a problemática dos relacionamentos].
mas protege o profundo, lança luz às densidades.
[um desejo:]
seus raios de luz chegam à superfície sem tocar a tensão,
lançando luz ao caminhar cego de tatear,
iluminando a passagem dos dias,
pulverizando os grãos dos dias caminhados no ar.
para que a escrita seja escrita de luz.
comunicando os mares graves e as águas calmas de ser.
leve como a poeira que a revela, que a compõe.
*aquele fenômeno que estudamos na escola, que nos conta sobre a habilidade dos mosquitos pousarem na água.
[ser leve demais e não romper o hímen da água].
[ser leve demais e não romper o hímen da água].
**uma questão, talvez sintomática do ser: para algumas pessoas, o punho dói por escrever de forma leve-constante. e só quando escrevemos com a mão pesada é que o punho para de doer.
2.8.12
o amor como uma questão de geografia
a nossa maneira de amar pode mudar de acordo com o lugar onde se está?
[estar como ser caminhante]
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[estar como ser caminhante]
ESTAR também diz respeito ao modo de SER.
ser
estar
viver
esperar
desejar
buscar
caminhar
o que se encontra no caminho diz respeito ao final do percurso?
[junto pedras e flores nos bolsos...
e cada um deles é a escolha de levá-los comigo.]
.................................................................
ser depende do modo de estar.
não importa o quao rápido esteja,
como se estar fosse sempre o movimento.
ser é uma constância mesmo que perene, mesmo que efêmero.
mudo o meu tempero, mudo meus desejos e necessidades.
mudo o meu estado de ser.
mudo o meu modo de abraçar o mundo
mudo o meu estado de estar.
mudo o meu modo de abraçar, de gostar, de desejar, de possuir, de dar, doar...
mudo o meu amor pelas pessoas e pelo mundo
mudo o modo como procuro o amor
onde o encontro, onde o enxergo, como o cativo.
..........................................................
cativar
só vale cativar num cativeiro sem paredes.
onde tudo são janelas gigantes de vento, poeira e alegria.
para viver o deserto com alguma alegria.
para atravessar o deserto em mar de nuvens.
talvez só depois do deserto para enxergar alguma geografia.
e estar um modo de ser.
mas enquanto não configuro a geografia,
[o deserto também é limbo de desenhos em geografias]
vou ser e gostar sem nomes e traçar linhas desencontradas, como no limbo.
limbo de oceano de emoções em águas calmas
oásis de pequenas alegrias
oásis de olhar granulado ao sol.
nietzsche, o abismo, o vazio.
Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche*
................................................................
o abismo te olhando nada mais é que o teu desejo pelo abismo.
o abismo é as vezes como a medusa para quem não podemos olhar.
ou podemos olhar por apenas alguns segundos.
os segundos necessários para compreender.
o seu abismo particular.
que é o seu buraco, que é o seu vazio.
é no vazio interno que temos todas as dúvidas, todas as amarguras, todas as próprias incompreensões guardadas.
o abismo é a medusa que pode te petrificar.
mas é também o mar de sensibilidade, o nosso poço mais profundo, reservatório de quem somos.
se você olhar para o abismo e ele te olhar de volta,não tenha medo do mergulho profundo, da garganta de jibóia.
se a garganta do abismo te engolir, deixe-se digerir, vá nadando de encontro ao fundo do abismo.
porque até mesmo o redemoinho de espiral tem uma ponta, porque não tem abismo que não tenha forma de voltar.
[nem que eu escale as mais duras pedras, nem que eu nade ao infinito,
nem que a garganta quebre os meus ossos até desaparecer e nascer outro]
nem que seja no salto ornamental inverso.
voltando para o precipício-mirador.
de onde miro o meu vazio tantas vezes quanto for necessário.
na busca do meu ser cheio de ar, de mar, amar, de buscar, de ser.
*desculpem, anotei isso faz tempo, sei lá de onde vem essa citação.
Friedrich Nietzsche*
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o abismo te olhando nada mais é que o teu desejo pelo abismo.
o abismo é as vezes como a medusa para quem não podemos olhar.
ou podemos olhar por apenas alguns segundos.
os segundos necessários para compreender.
o seu abismo particular.
que é o seu buraco, que é o seu vazio.
é no vazio interno que temos todas as dúvidas, todas as amarguras, todas as próprias incompreensões guardadas.
o abismo é a medusa que pode te petrificar.
mas é também o mar de sensibilidade, o nosso poço mais profundo, reservatório de quem somos.
se você olhar para o abismo e ele te olhar de volta,não tenha medo do mergulho profundo, da garganta de jibóia.
se a garganta do abismo te engolir, deixe-se digerir, vá nadando de encontro ao fundo do abismo.
porque até mesmo o redemoinho de espiral tem uma ponta, porque não tem abismo que não tenha forma de voltar.
[nem que eu escale as mais duras pedras, nem que eu nade ao infinito,
nem que a garganta quebre os meus ossos até desaparecer e nascer outro]
nem que seja no salto ornamental inverso.
voltando para o precipício-mirador.
de onde miro o meu vazio tantas vezes quanto for necessário.
na busca do meu ser cheio de ar, de mar, amar, de buscar, de ser.
*desculpem, anotei isso faz tempo, sei lá de onde vem essa citação.
9.6.12
no deserto é calor
e é tão dolorido quanto o frio.
o frio que exige tantos preenchimentos, tantas cobertas, tantas camadas.
tantos apegos, tantos confortos, tantas distrações...
todas as coisas sem as quais não consigo viver. todas as tramas que construí no meu cobertor.
cobertor - tramas - mesh-points - paisagem enredada de viver.
...
no calor, tudo é excesso.
tudo igualmente pesa.
peso-conforto-peso-desconforto.
no deserto é frio e calor como é noite e dia todos os dias.
[sinto falta de tudo para o que digo adeus].
no calor é difícil mover-se como no frio.
e no entanto, nos movemos.
nos movemos como se caminhando pudéssemos fugir do calor.
porque o deserto, se atravessa de dia.
enquanto sinto calor.
enquanto posso me despir de tudo o que pesa.
enquanto tenho força para atravessar o deserto todos os dias.
...
todos os dias infinitos do deserto vivem para ser atravessados, tudo o que me cobre me protege deserto de viver, todas as coisas mais amadas na vida merecem ser perdidas e recuperadas, todas as coisas merecem ser perdidas como quem protege o seu amor no fundo da memória, todo o deserto é grande demais pra ser atravessado com o peso das memórias, das densidades amorosas, dos escapismos rasos. EM TODO O DESERTO FAZ CALOR E EU SÓ POSSO ATRAVESSÁ-LO COM O DESEJO. no deserto o desejo faz calor e é por isso que eu não preciso de mais nada. vou me despir de todas as camadas na direção do desejo.
3.6.12
As cidades dentro das cidades e a cidade imaginada.
No redemoinho, a água tem camadas.
como as cidades, que se constroem sobre si mesmas,
rapidamente, em círculos.
círculo:
volta, retorno, fechamento, sem ponto de partida, sem ponto de chegada-fechada.
re-inícios, re-loopings, re-observações, re-distanciamentos.
Em curvas, em tonturas, indo para todo lugar, indo para lugar nenhum.
Não quero estar na curva, quero estar na linha.
Nas quadras, nos encontros, nas portas.
Nas passagens, nos corredores, nos cruzamentos.
Nas travessias, nos barcos, no mar.
...no mar de cidades, deve existir a cidade oásis.
[tão real porque tão longe do deserto].
Perdida entre pistas, entre cidades diversas.
às vezes escondida nas curvas, nas tangentes...
Nas esquinas as curvas dissolvem-se em linhas.
em encontros, em acostamentos.
A cidade oásis é cidade de sonho e de projeção.
é busca nas tangentes, busca nas retas.
é turva de quem busca sonhando, olhando para...
é busca de quem olha.
É projeção de construção.
Em cada linha, um risco.
um traço, uma soma, um encontro.
...
De esquina em esquina, como quem soma vértices,
Construo a minha casa, o meu cubo, a minha paisagem de mesh points.
Em cada ponto um encontro, em cada ponto uma trama.
Em cada trama o encontro de cidades e de tricô.
Costurando-tricotando-tramando uma paisagem de viver.
Uma paisagem-rede, a pescar a minha cidade oásis dentro do mar de cidades.
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como as cidades, que se constroem sobre si mesmas,
rapidamente, em círculos.
círculo:
volta, retorno, fechamento, sem ponto de partida, sem ponto de chegada-fechada.
re-inícios, re-loopings, re-observações, re-distanciamentos.
Em curvas, em tonturas, indo para todo lugar, indo para lugar nenhum.
Não quero estar na curva, quero estar na linha.
Nas quadras, nos encontros, nas portas.
Nas passagens, nos corredores, nos cruzamentos.
Nas travessias, nos barcos, no mar.
...no mar de cidades, deve existir a cidade oásis.
[tão real porque tão longe do deserto].
Perdida entre pistas, entre cidades diversas.
às vezes escondida nas curvas, nas tangentes...
Nas esquinas as curvas dissolvem-se em linhas.
em encontros, em acostamentos.
A cidade oásis é cidade de sonho e de projeção.
é busca nas tangentes, busca nas retas.
é turva de quem busca sonhando, olhando para...
é busca de quem olha.
É projeção de construção.
Em cada linha, um risco.
um traço, uma soma, um encontro.
...
De esquina em esquina, como quem soma vértices,
Construo a minha casa, o meu cubo, a minha paisagem de mesh points.
Em cada ponto um encontro, em cada ponto uma trama.
Em cada trama o encontro de cidades e de tricô.
Costurando-tricotando-tramando uma paisagem de viver.
Uma paisagem-rede, a pescar a minha cidade oásis dentro do mar de cidades.
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| ilustração de Dan Mountford. |
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