Hoje, por vias tortas* reencontrei o seguinte texto: O nó das coisas E fiquei pensando na maravilha inesperada que é ver um texto ainda fazer tanto sentido, tanto tempo depois. Não é a mesma ocasião Não é o mesmo acontecimento. Não é a mesma pessoa que está vivendo, olhando, pensando. Não é o mesmo sentimento. é o mesmo sentido-sentimento, é ser. ainda ser aquela pessoa. é porque as angústias nunca se esvaem totalmente. ou quando esvaem, um dia retornam, [tudo gira, gira, afinal. mudamos e ainda somos o mesmo.] embaixo de outro rosto. de outra sombra, de outros porquês. e agora? e se o texto me diz: dar um tempo. ... dar um tempo pra entender. pra viver, decidir, aceitar, transformar, mudar na mesma direção. ou... não. nem isto, nada disto. A resposta que é a dúvida. Uma vez me disseram: viva a dúvida. ...viver, perguntar dentro, observar, sentir. Nem tanto entender, quanto: perceber. ... Tem passos que são para trás. Outros são parados, paralisados. [o olho muito vivo de olhar fixamente na direção relaxada das coisas]. às vezes prefiro ser cega. olhar com a nuca enquanto vou caminhando embora. outras vezes, enquanto não percebo vou caminhando na direção outra das coisas. e eu às vezes não sei se caminho para me encontrar ou para me perder. e tudo o que tenho são meus olhos muito vivos de procurar perceber, apesar do coração em nuvens. ___ *por vias tortas: dizem assim: deus caminha certo mesmo que por vias tortas, ou, ele escreve certo por linhas tortas. Em outras palavras, reecontrar um texto que tinha tanto a me dizer hoje foi providência divida, ou, uma coincidência algo assombrosa.
... E aquele Que nunca morou em seus próprios abismos Nem andou em promiscuidade com seus fantasmas Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema. ___ *trecho do poema ZONA HERMÉTICA, de Manoel de Barros, em Poesias [1947]. (no livro Manoel de Barros poesia completa, ed. Leya, São Paulo, 2012, p.82)
vivo a certeza como um mergulho ornamental para dentro do mar. não importam os redemoinhos, as correntezas, o repuxo. não importam as chuvas, as tempestades, as trovoadas em alto mar. a certeza é um raio em direção a um objetivo o desejo cego que quem não duvida encontrar. e percorro o desejo com a força intensa de quem foge da areia-movediça. a areia que engole os passos, a direção, a vontade, o desejo. ... [descobri que posso ter certeza por muito tempo. não duvidar mesmo quando duvido, mesmo quando a acidez do deserto ameaça me engolir.] ... quando se tem certeza por tanto tempo, esquecemos onde foi parar a dúvida. ... a dúvida pode viver em cada grão de areia que sopro para longe, dentro de casa. [já não a vejo, não quer dizer que tenha ido embora]. escondo a poeira da dúvida em muitos lugares, e esqueço que muitas vezes a escondo dentro de mim. [a bola de dúvidas crescendo dentro do peito pode um dia afogar]. ......... ... como viver a dúvida? .fantasma da imobilidade, nuvem pesada de não chover. ... ter certeza da vontade é tão relativo quanto as nuvens de chuva passageira, que passam sem dar certeza de suas intenções. a dúvida é o pesadelo dos inebriados da vontade, alienados de que as dúvidas são nuvens. ... a dúvida-nuvem vive todos os dias, dos ensolarados aos mais tristes. podem estar distantes, intimidadas pela vontadade solar, pela alegria vontade projetada. podem ser grandes, obscuras e pesadas; passageiras ou insistentes. melhor deixar chover. deixa chover o choro da dor sublimada, do corpo que se rasga de insistir e não percebe, chover o choro do corpo cansado na travessia no deserto, chover a nuvem que embaça o olhar, que endurece o coração sincero da vontade. ... que chovam todas as dúvidas dentro do peito, para as nuvens se dissiparem com alegria, para o sol voltar a brilhar no olhar sem nuvens.
* parte de obra de Diego Maquieira, exposta da 30º Bienal de São Paulo. ** e vale muito ver o vídeo deste link aqui. [a ficção sabe mais que a realidade] *** ele ainda diz [aqui]: Quiero ser poeta de la Nasa, que es donde se está haciendo lo que deberían hacer los poetas, fotografiar lo desconocido...
Uma espécie de gosto por tais miudezas me paralisa. Caminho todas as tardes por este quarteirões desertos, é certo. Mas nunca tenho certeza Se estou percorrendo o quarteirão deserto Ou algum deserto em mim.
* não tenho a menor ideia de qual livro o texto se encontra. Mas existe a suspeita de que seja do “Tratado geral das grandezas do íntimo”